Motociclistas Cercaram o Orfanato Onde Escondiam Minha Filha6 min de lectura

**Diário Pessoal**

Os motociclistas cercaram a casa de acolhimento onde escondiam a minha filha de mim. Eu estava à frente do grupo, sentado na minha Harley, a encarar a casa onde a minha pequena de sete anos tinha ficado trancada por noventa e três dias.

Noventa e três dias desde que a segurei nos braços. Noventa e três dias desde que ouvi a sua voz. Noventa e três dias desde que a minha ex-mulher destruiu a minha vida com uma mentira.

A assistente social disse que eu era um perigo para a minha própria filha. Que o meu “estilo de vida de motociclista” me tornava inadequado. Que a minha filha tinha medo de mim. Que eu não podia vê-la até a investigação terminar.

Uma investigação sobre acusações que nunca aconteceram. Maus-tratos que nunca existiram. Violência que só existia na declaração jurada da minha ex-mulher ao tribunal.

Chamo-me Rodrigo Silva. Tenho cinquenta e quatro anos. Ando de mota há trinta e um. Fiz duas missões no Iraque. Nunca levantei a mão a quem não merecesse, e garanto que nunca toquei na minha filha senão com amor.

Mas nada disso importou quando a Carla decidiu que queria a custódia total. Quando quis apagar-me da vida da nossa filha. Quando entrou no tribunal de família e disse ao juiz que eu tinha batido na nossa menina.

A Leonor foi retirada da escola pelos Serviços de Proteção à Infância numa terça-feira à tarde. Eu estava no trabalho quando aconteceu. Quando recebi a chamada, ela já estava num lar de acolhimento de emergência. Quando cheguei ao escritório, disseram-me que eu não podia saber onde ela estava.

“Para sua proteção,” disse a assistente social. Uma mulher chamada Patrícia, com olhos frios e voz mais fria ainda. “Até terminarmos a investigação, não pode ter contacto.”

“Protegê-la do quê? Nunca lhe fiz mal!”

“Senhor, temos uma declaração jurada da mãe da criança. Temos de levar estas acusações a sério.”

“A Carla está a mentir! Já ameaçou fazer isto há meses! Disse que se eu não lhe desse a casa, faria com que eu nunca mais visse a Leonor!”

A expressão da Patrícia não mudou. “Isso é para o tribunal decidir.”

Contratei um advogado. Um bom. Caro. Não adiantou. O sistema arrastava-se como melaço. Audiências de emergência eram adiadas. Provas “desapareciam”. O advogado da minha ex enchia o processo de recursos, atrasos intermináveis.

Entretanto, a minha filha estava algures no sistema de acolhimento, provavelmente aterrorizada, a perguntar porque é que o pai não vinha buscá-la.

Tentei tudo. Liguei para todos os números. Preenchi todos os formulários. Apareci em todos os escritórios. Ninguém me ajudou.

“Estas coisas levam tempo,” disse o advogado.

“A minha filha não tem tempo! Ela tem sete anos e acha que eu a abandonei!”

“Rodrigo, compreendo a tua frustração—”

“Não compreendes nada.”

Deixei de dormir. De comer. Parei de me importar com tudo, menos em trazer a Leonor de volta.

Os meus irmãos do clube repararam. Claro que repararam. Andávamos a cavalo há quinze anos. Conheciam-me melhor que ninguém.

O Tomás, o presidente do clube, apareceu no meu apartamento uma noite. Encontrou-me sentado no escuro, a olhar para fotos da Leonor no telemóvel.

“Irmão, fala comigo.”

Então contei-lhe tudo. As mentiras. A investigação. O pesadelo burocrático. Como não via a minha filha há quase três meses e ninguém me dizia se ela estava bem.

O Tomás ouviu sem interromper. Quando terminei, ficou em silêncio por um longo momento.

“Sabes onde ela está?”

“Descobri na semana passada. Um lar na Rua das Acácias. Passei por lá, mas não parei. Se violar a ordem do tribunal, perco qualquer hipótese de a ter de volta.”

“Então tens de jogar pelas regras.”

“As regras estão quebradas, Tomás. Foram feitas para afastar os pais dos filhos.”

O Tomás acenou lentamente. “As regras dizem que não podes aproximar-te daquela casa. Não dizem nada sobre os teus irmãos.”

Não percebi o que ele queria dizer até três dias depois.

O Tomás ligou-me às 17h. “Aparece no clube dentro de uma hora. Com tudo. Vamos dar um passeio.”

Quando cheguei, não acreditei no que vi. Quarenta motas. Quarenta irmãos. Alguns tinham vindo de quatro horas de distância. A notícia espalhara-se pela comunidade de motociclistas veteranos como fogo.

“O que é isto?”

O Tomás pôs a mão no meu ombro. “Isto é família, irmão. A verdadeira. A que aparece.”

O Marcos, nosso vice-presidente, entregou-me um papel. “Temos o endereço. Temos um plano. Tudo legal. Mas vamos fazer algum barulho.”

“Não percebo.”

“Vais perceber.”

Cavalgámos em formação pela cidade. Quarenta Harley a roncar pelas ruas. As pessoas paravam a olhar. Carros encostavam. Era impossível ignorar-nos.

Quando viramos para a Rua das Acácias, o meu coração disparou. O lar era uma casa modesta de dois andares, com um pequeno jardim e uma carrinha na entrada.

Em algum lugar dentro daquela casa estava a minha filha.

O Tomás levantou a mão, e todas as motas encostaram. Quarenta motas alinhadas em ambos os lados da rua. Depois, uma a uma, os motores silenciaram.

O silêncio foi quase mais poderoso que o barulho.

Ficámos sentados. Ninguém se mexeu. Ninguém falou. Apenas esperámos.

Em dez minutos, os vizinhos começaram a sair de casa. Em vinte, alguém chamou a televisão. Em trinta, chegaram duas viaturas da PSP.

Um agente aproximou-se do Tomás. “Senhor, posso perguntar o que estão aqui a fazer?”

“À espera, agente.”

“À espera de quê?”

“De justiça.”

O agente olhou para os quarenta motociclistas, para a carrinha da televisão, para a multidão crescente.

“Não estão a bloquear o trânsito. Não estão a invadir propriedade. Mas isto é… incomum.”

“Estamos cientes, agente. Só estamos sentados em propriedade pública. Em paz. Dentro da lei.”

O agente coçou a cabeça. “E quanto tempo planeiam esperar?”

O Tomás sorriu. “O tempo que for preciso.”

A mãe de acolhimento saiu de casa. Uma mulher de meia-idade com mãos preocupadas. Olhou para o muro de motas e motociclistas e empalideceu.

“O que se passa? Porque estão aqui?”

Quis gritar. Exigir a minha filha. Mas fiquei na mota. Em silêncio. Deixei o plano desenrolar-se.

O Tomás aproximou-se dela devagar, mãos visíveis, voz calma.

“Senhora, não estamos aqui para causar problemas. Estamos aqui pela menina que está a acolher. Leonor Silva. O pai dela é do nosso clube. Não vê a filha há três meses por causa de mentiras contadas ao tribunal.”

Os olhos da mulher saltaram para mim. “Você é o pai?”

Acenei. Não conseguia falar.

“Disseram-nos que era perigoso. Que lhe tinha batido.”

O Tomás abanou a cabeça. “Senhora, este homem nunca magoou quem não merecesse. É veterano. Bombeiro voluntário. Treinou a equipa de futebol da filha durante três anos. Essas acHoje, a Leonor dorme com o seu colete de “Anjo Guardião” pendurado na parede, sabendo que nunca mais estará sozinha.

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