O baile realizou-se num dos locais mais exclusivos do Porto, na varanda envidraçada do Hotel Dona Maria, onde o céu alaranjado se fundia com as luzes da cidade. Era um casamento elegante, cheio de sorrisos forçados, fatos à medida e perfumes caros pairando no ar. A orquestra tocava um fado com precisão técnica, mas sem alma.
Todos tentavam parecer felizes, todos menos um. Numa mesa redonda, afastada do centro da sala, estava um homem que ali parecia ter sido colocado por engano. Miguel Santos, português, rosto impassível, fato escuro sem uma única ruga, as mãos repousadas rigidamente sobre as pernas.
Não falava com ninguém, não olhava para ninguém, apenas observava em silêncio, como se o mundo à sua volta fosse um filme mudo que já vira muitas vezes. À sua volta, os convidados evitavam até cruzar olhares. Alguns cochichavam sobre ele abertamente. *Dizem que é milionário, mas não parece. Ouví que tem fábricas de automóveis ou que comprou metade do Algarve, mas ninguém se aproxima.*
Mesmo com a pista de dança a encher-se de pessoas a moverem-se desajeitadamente entre risos e copos, ele permanecia imóvel, como se não soubesse ou não quisesse fazer parte daquilo. Não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia os gestos, os risos contidos, os olhares desviados.
O desconforto não precisa de tradução.
Entretanto, entre bandejas e copos vazios, Catarina movia-se ágil pela sala, evitando conversas que não lhe pertenciam. Tinha 24 anos, olhos atentos e uma expressão que tentava manter neutra, apesar de os seus pensamentos raramente estarem em silêncio. Vestia o uniforme da equipa: camisa branca, colete preto e avental bem passado.
Ninguém sabia que ela falava japonês. Ninguém sabia que tinha sido uma aluna destacada na universidade antes de desistir. Naquela festa, era apenas a empregada de cabelo escuro no canto e estava habituada a ser invisível. Mas, naquela noite, a sua atenção foi atraída por Miguel, não por curiosidade superficial, mas por algo mais profundo, mais humano.
Havia uma solidão nele que lhe parecia familiar, uma rigidez que não nascia do orgulho, mas do desenraizamento. Do seu canto, observou-o beber apenas um gole de água. Percebeu como ele lutava para manter a compostura, como se defendesse uma dignidade silenciosa que ninguém ali parecia reconhecer. Não havia arrogância no seu olhar, mas um cansaço subtil e antigo.
Quando os seus olhares se cruzaram, por um instante, Catarina baixou instintivamente os olhos, mas sentiu algo. Não era uma conexão romântica ou um clarão de atração, era outra coisa, como se, no meio da festa, ambos soubessem que não pertenciam ali. Aquele breve cruzamento de olhares foi tão rápido que ninguém mais reparou.
Mas, para os dois, sem que ainda soubessem, aquela noite não seria como as outras.
Catarina não costumava envolver-se com convidados; conhecia o seu lugar: passar despercebida, cumprir o turno e regressar a casa antes que o cansaço se transformasse em tristeza. Mas, naquela noite, enquanto os brindes se repetiam com risadas cada vez mais altas, o seu olhar voltava uma e outra vez para o canto, onde Miguel permanecia como uma sombra.
Sozinho, as mãos firmes sobre as pernas, o olhar fixo no centro da sala, sem se mover um centímetro. Algo dentro dela não a deixava ignorá-lo. Já vira muitas pessoas sozinhas em festas, bêbados sem companhia, mulheres ignoradas, tios divorciados com o olhar vazio. Mas aquilo era diferente. Não era a solidão de quem foi excluído.
Era a de quem, embora presente, nunca tinha sido realmente convidado.
Catarina observou-o durante vários minutos entre bandejas de petiscos, conversas sobre investimentos e comentários classistas atirados como dardos envoltos em educação.
— *Aquele homem parece mudo* — disse uma mulher de vestido vermelho, sorrindo maliciosamente.
— *Ou está à espera que vão adorá-lo* — respondeu a amiga.
— *Ou simplesmente não quer misturar-se com portugueses* — acrescentou um homem, soltando uma risada tensa.
Catarina sentiu as palavras a apertarem-lhe o peito. Não por causa dele, exatamente, mas porque já ouvira aquele tom tantas vezes dirigido a pessoas como ela, pessoas que trabalhavam a servir, a limpar, a cuidar, pessoas que não importavam.
Entretanto, Miguel ainda não reagira, mas havia uma ligeira tensão nos seus ombros, como se entendesse mais do que demonstrava, como se cada palavra o tocasse à distância, mas tocasse mesmo assim.
Passada meia hora, Catarina aproximou-se da sua mesa com uma bandeja de refrescos. Não precisava, pois outro empregado estava encarregado daquela zona, mas algo a impelia.
Colocou um copo fresco à sua frente com movimentos suaves. Estava prestes a afastar-se quando o ouviu dizer baixinho:
— *Obrigado.*
O sotaque era desajeitado, mas compreensível. Português básico, com esforço.
Catarina olhou para ele, surpresa, e, sem pensar, respondeu em japonês:
— *Dōitashimashite. Chin shinai de kudasai.*
A cabeça de Miguel ergueu-se bruscamente. Os olhos abriram-se ligeiramente e, pela primeira vez naquela noite, algo na sua expressão mudou. Uma racha no muro.
— *Você fala japonês* — disse devagar, ainda na sua língua.
Catarina acenou.
— *Estudei durante três anos. Gosto muito da vossa cultura.*
Ele não respondeu de imediato, mas inclinou a cabeça num ligeiro aceno que vinha do coração. Era um gesto breve, subtil, mas cheio de respeito. Catarina sentiu que acabara de cruzar uma linha, uma invisível, não só com ele, mas com toda a festa. Sabia que, se alguém a visse a falar com um convidado, especialmente aquele, os olhares não tardariam. Mas, naquele momento, não lhe importou.
— *Deseja mais alguma coisa?* — perguntou, agora em português.
Miguel fitou-a por um longo segundo e depois abanou a cabeça.
— *Só obrigado por ter falado.*
Catarina acenou. Sorriu brevemente, um sorriso tímido, mais para si do que para ele, e voltou a circular entre as mesas.
Ninguém reparara em nada ainda, mas algo mudara.
Depois daquele breve intercâmbio, Catarina continuou a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Mas o seu corpo não mentia; os passos estavam mais leves, a respiração mais atenta. Sentia uma energia diferente no peito, uma mistura de adrenalina e dúvida. Tinha feito algo errado?
Teria-o constrangido? Alguém os vira?
Na verdade, sim. Alguém vira.
Hugo, o chefe de sala, alto, moreno, com uma voz seca e um rosto talhado pelo desagrado, observava-a perto do bar. Era um homem que não gritava, mas sabia castigar com uma única frase. E, embora não dissesse nada naquele momento, os seus olhos seguiam Catarina com um julgamento silencioso que ela conhecia demasiado bem.
Entretanto, no seu canto, Miguel ainda não se mexia muito, mas algo nele mudara. Agora, os seus olhos não fitavam a sala à distância, procuravam. De vez em quando, discretamente, seguiam Catarina enquanto ela passava entre as mesas. Não era desejo, não era romantismo, era algo mais simples e raro:E quando a música voltou a tocar, desta vez um lento fado tradicional, Miguel levantou-se sozinho e, com um gesto sereno, estendeu a mão para Catarina, como se dissesse, sem palavras, que valera a pena esperar por alguém que o visse verdadeiramente, e juntos dançaram enquanto o resto do mundo desaparecia.





