PARTE 1: A Proposta
Acostumas-te aos olhares. É a primeira coisa que aprendes quando entras num clube de motociclistas. Aprendes que, para o resto do mundo, já não és uma pessoa. És um número. És uma ameaça. És a razão pela qual fecham as portas do carro quando paras num semáforo.
Estava sentado no Café do Zé, ali perto da EN-125 no Algarve, a tentar saborear um café que sentia a borracha queimada e uma fatia de bolo de laranja que devia ter sido feito na semana passada. Eram cerca das 14h de uma terça-feira. O sítio estava calmo—só se ouvia o zumbido do frigorífico atrás do balcão e o murmúrio baixo de dois camionistas no canto.
Eu ocupava espaço. Sei disso. Tenho um metro e noventa, mais de cem quilos de barba e tatuagens, com um colete que grita “afasta-te” para a gente direita. O capacete estava em cima da mesa, riscado e cheio de autocolantes de tasquinhas desde aqui até à Feira de Barcelos. Não estava à procura de confusão. Só queria café.
Mas o ambiente mudou quando a porta tocou.
Não era a polícia. Não era um rival.
Era uma menina. Não devia ter mais de seis anos. Vestia um vestido cor-de-rosa já gasto, com manchas de terra na bainha, e sandálias com velcro a soltar-se. O cabelo loiro estava emaranhado, como se tivesse corrido contra o vento.
O café ficou em silêncio. Silêncio de se ouvir um alfinete cair no chão. A empregada, a Dona Fernanda, que me enchia a chávena sem me olhar nos olhos, parou a meio. Os camionistas pararam de mastigar.
A menina ficou à entrada, a olhar em volta. Os olhos azuis estavam cheios de medo. Mas havia mais qualquer coisa neles. Determinação.
Ela olhou para os camionistas e abanou a cabeça. Olhou para o homem de fato a comer uma salada no canto e abanou a cabeça outra vez.
Depois, os olhos dela prenderam-se em mim.
Eu suspirei por dentro. Ótimo. Lá vem ela. Vai perguntar onde fica a casa de banho, e a mãe vai aparecer a gritar comigo por olhar para a filha.
Mas ela não perguntou pela casa de banho.
Começou a andar. Passo a passo, atravessando o chão de azulejos até chegar ao motociclista assustador no canto.
“Menina, não incomodes o senhor,” sussurrou a Dona Fernanda, com a voz a tremer.
A menina ignorou-a. Parou em frente à minha mesa. Era tão pequena que o nariz dela mal passava da borda da mesa. Baixei devagar a chávena, a olhar para ela por cima dos óculos de sol. Não sorri. Não franzi a testa. Só esperei.
Ela enfiou a mãozinha no bolso e tirou um punhado de qualquer coisa. Atirou-o para cima da mesa, ao lado do bolo.
Era uma nota de cinco euros, duas moedas de cinquenta cêntimos e um cêntimo.
Ela olhou-me nos olhos, o queixo a tremer, a tentar ser corajosa.
“És dos Nocturnos?” perguntou. A voz era fina, mas alta o suficiente para toda a gente ouvir.
Recostei-me, o colete de couro a ranger. “Ando com um clube, pequenina. Porquê?”
“O meu pai diz que vocês são maus,” ela respondeu. “Diz que batem nas pessoas e ninguém se mete convosco.”
Senti um músculo no maxilar a contrair-se. “O teu pai fala muito.”
“Ele diz que vocês são monstros,” continuou, com lágrimas a encherem-lhe os olhos. “Diz que toda a gente tem medo de vocês.”
Olhei em volta. Os camionistas estavam a observar. A Dona Fernanda agarrava a cafeteira como se fosse uma arma. Sim, toda a gente tinha medo.
“O que queres, miúda?” perguntei, com a voz grave. “Estou a comer.”
Ela empurrou o dinheiro para mim.
“Quero contratar-te,” disse.
Pisquei os olhos. “Contratar-me?”
“Cinco euros e um cêntimo,” apontou para o dinheiro. “É tudo o que tenho. Chega?”
“Chega para quê?”
Ela respirou fundo, a tremer. “Para me levares a casa.”
Franzi a testa. “Onde moras?”
“A três ruas daqui.”
“Porque não vais sozinha? Ou chamar os teus pais?”
Ela olhou para as sandálias. “Não posso ir sozinha. Ele está lá.”
O ar no café pareceu ficar mais frio.
“Quem está lá?” perguntei, baixando a voz para só ela ouvir.
“O homem mau,” sussurrou. “O meu padrasto. Ele está… a partir coisas outra vez. A mamã está a chorar. E ele disse que se eu voltasse para dentro, ia ensinar-me uma lição.”
O meu sangue gelou. Daquele gelo que queima.
“Ele trancou-te fora?”
“Não,” limpou o nariz. “Eu fugi. Mas esqueci-me do Urso. E a mamã precisa de mim. Tenho de voltar. Mas estou com medo. Preciso de um monstro.”
Ela olhou para mim, as lágrimas a caírem.
“Preciso de um monstro para assustar o homem mau. Por favor. Dou-te todo o meu dinheiro.”
Olhei para os cinco euros. Olhei para o medo no rosto dela. Olhei para o julgamento nos olhos dos outros clientes, que não faziam ideia do que a menina estava a pedir.
Levantei-me.
A cadeira rangeu no chão. Fiquei muito acima dela. A Dona Fernanda suspirou atrás do balcão, a esticar a mão para o telefone—provavelmente para ligar para a polícia.
Estiquei a mão—uma mão do tamanho de um presunto, com tatuagens nos nós dos dedos. Empurrei o dinheiro de volta para ela.
“Fica com o teu dinheiro, menina,” disse com voz rouca.
O rosto dela desfez-se. Parecia que o mundo dela tinha acabado. “Não chega?”
Peguei no capacete. Tirei os óculos de sol para ela ver os meus olhos.
“Não é pelo dinheiro,” disse. “Não se contrata um motociclista com dinheiro. Contrata-se com respeito. E tu mostraste mais coragem do que qualquer homem aqui.”
Saí da mesa e olhei para ela.
“Vamos buscar o Urso.”
PARTE 2: A Caminhada
Deixei vinte euros na mesa pelo bolo que não comi e saí. A menina, que se chamava Leonor, correu para acompanhar os passos longos.
Quando saímos do café, o calor do Algarve abraçou-nos. A minha mota, uma Harley-Davidson personalizada, brilhava ao sol.
“Vamos de mota?” perguntou, a olhar para ela com admiração.
“Hoje não,” respondi. “Vamos a pé. Quero que ele nos veja chegar.”
A caminhada foi a mais longa das nossas vidas. A Leonor esticou a mão e agarrou a minha. A mão dela desaparecia dentro da minha luva de couro. Um gigante barbudo de motociclista a dar a mão a uma menina de vestido cor-de-rosa.
Os carros abrandavam ao passar. As pessoas olhavam das varandas. Eu olhava de volta, desafiando alguém a dizer alguma coisa.
“Ele é muito grande?” perguntou a Leonor baixinho.
“Não interessa,” respondi.
“Ele bate nas paredes,”E no final da rua, enquanto o sol poente pintava o céu de laranja, a Leonor sorriu e apertou o urso contra o peito, sabendo que, por hoje, os monstros do mundo tinham ficado um pouco mais pequenos.





