Ninguém podia se aproximar dele sem sair machucado. Um cavalo selvagem, imponente e violento, estava condenado ao sacrifício até que, do nada, apareceu uma menina sozinha, abandonada, invisível para todos. Mas o que ela fez deixou o povoado inteiro sem palavras, e o final dessa história mudou seus destinos para sempre.
“Some daqui, pivete!”, gritou o açougueiro, atirando um pano sujo que ela quase não conseguiu desviar. Beatriz correu com o pedaço de pão nas mãos, sem olhar para trás. Seus pés descalços batiam nas pedras do beco enquanto as risadas dos adultos se perdiam atrás dos muros.
Ela não fazia ideia de que horas eram nem quanto tempo havia passado desde a última vez que comera. Sabia apenas uma coisa: não podia ficar muito tempo no mesmo lugar. Atravessou a praça principal e se escondeu entre os arbustos atrás dos estábulos do vale. Ali, atrás do cercado de madeira onde ninguém a via, encolheu-se com as pernas contra o peito.
O pão estava duro, mas não importava. Comeu devagar, observando os movimentos do outro lado da cerca. Tempestade estava agitado novamente. O cavalo preto relinchava forte, batendo o chão com os cascos. Era maior que os outros, mais escuro, mais selvagem. Toda vez que um dos homens tentava se aproximar, o animal se erguia, ameaçador.
Um deles havia caído na semana passada. Fraturou o braço. Desde então, ninguém mais entrava no cercado sem uma vara. Beatriz via tudo. Sempre via. Dia após dia, de seu cantinho escondido entre a grama seca e as tábuas quebradas, acompanhava cada movimento do animal.
Ela ficava fascinada por sua força, mas mais ainda por aquela aura de solidão que parecia envolvê-lo. Não era raiva o que ele tinha, era outra coisa—medo, talvez, ou desconfiança, a mesma que ela havia aprendido a usar como escudo. Um portão batendo interrompeu seus pensamentos. Do escritório no fundo, saiu o senhor Eduardo, o dono da fazenda.
Andava com passos firmes, ladeado por dois peões. Um deles carregava uma pasta, o outro uma corda grossa. “Não podemos mais correr riscos”, disse o senhor Eduardo sem levantar a voz. “Esse animal não serve. Está amaldiçoado ou simplesmente louco. Vamos sacrificá-lo na segunda.” Beatriz sentiu um nó no estômago.
“Tem certeza, patrão?”, perguntou um dos peões. “Podíamos vender por um preço baixo. Talvez alguém queira.” “E quem vai querer uma bomba-relógio com patas?”, resmungou o senhor Eduardo. “Já está decidido.” Os homens se afastaram. Beatriz não se moveu. Não conseguia. Seus dedos se fecharam com força no tecido rasgado de seu vestido.
A palavra “sacrifício” ecoava em sua cabeça como um sussurro gelado. Tempestade continuava agitado, batendo o chão com espuma no focinho e o olhar perdido em algum ponto do céu. Beatriz o observou por um longo tempo, até que seus olhos começaram a arder.
Então, sem pensar, levantou-se, esgueirou-se entre os arbustos e desapareceu. Naquela noite, a fazenda dormia. As luzes estavam apagadas, os peões roncavam na casa grande, e o vento agitava os galhos secos do eucalipto que vigiava o portão. Beatriz esperou até que tudo estivesse em silêncio. Então cruzou a rua e deslizou pelo buraco que conhecia entre as tábuas soltas do cercado. Não levava lanterna—não precisava.
A luz da lua era suficiente. Tempestade a viu imediatamente. Relinchou. Movimentou-se com força. Seus cascos bateram no chão. A menina parou a três metros dele, sem se aproximar mais. Não disse nada. Apenas sentou-se, não fugiu, não estendeu a mão, não tentou tocá-lo—apenas baixou a cabeça e esperou. O cavalo bufou forte, mas não se aproximou nem se afastou.
Respirava rápido, nervoso, como se não entendesse o que aquela criatura pequena fazia em seu espaço. Ela ergueu lentamente o olhar, e seus olhos se encontraram. Passaram-se minutos—talvez horas. Então o animal se virou, baixou a cabeça e deitou no chão, dando-lhe as costas. Beatriz não sorriu, não chorou—apenas ficou ali, respirando fundo.
Quando o céu começou a clarear, levantou-se devagar, saiu por onde entrou e desapareceu novamente entre os arbustos. Não disse nada, mas naquela noite algo mudou. O sol mal havia despontado atrás das montanhas quando os primeiros raios iluminaram o cercado. Beatriz já não estava mais lá. Ninguém notou sua ausência. Ninguém soube que ela estivera ali. E, no entanto, algo parecia diferente.
Tempestade permanecia deitado em um canto do cercado, com a cabeça baixa e os olhos meio fechados. Não se mexia como antes. Não bufava nem batia nas cercas. Os homens do estábulo, acostumados com sua energia violenta desde o amanhecer, pararam para observá-lo com desconfiança.
“O que há com ele?”, perguntou Manuel, o capataz, coçando a barba. “Não sei, mas não gosto”, respondeu outro, apoiando um saco de aveia sobre a roda de um carrinho. “Parece estranho, calmo, como se estivesse doente.” O senhor Eduardo chegou pouco depois, com seu chapéu de aba larga e seu passo firme, como todas as manhãs. Trazia o cenho franzido e os olhos cansados.
Ao vê-lo, os homens se endireitaram, e um deles foi abrir o portão do cercado. “E esse?”, murmurou o senhor Eduardo ao ver o cavalo deitado. “Acordou assim, patrão”, respondeu Manuel. “Quase não se mexeu. Não quis nem o feno.” O senhor Eduardo franziu ainda mais a testa. Entrou no cercado com cautela, as mãos nos bolsos, o olhar fixo no animal.
Aproximou-se alguns passos. Tempestade levantou a cabeça ao ouvi-lo, mas não fez nenhum movimento para se levantar. Apenas o encarou. Suas orelhas não estavam para trás. Seus músculos, antes tensos como cordas, agora pareciam relaxados. “Talvez ele tenha cansado de brigar”, disse um dos peões do lado de fora da cerca. “Quem sabe já entendeu.”
O senhor Eduardo balançou a cabeça. “Cavalos como esse não entendem. Só esperam o momento para soltar a fúria.” Agachou-se, pegou um punhado de terra úmida e deixou-a escorrer entre os dedos. “Já tomei uma decisão”, acrescentou, levantando-se. “Não vou correr mais riscos. Esse animal tem que ir embora.”
Os homens não responderam. Todos sabiam o que “ir embora” significava. “Chame o veterinário”, ordenou. “Quero que ele esteja presente quando fizerem. Não quero erros. Que seja rápido.” Manuel assentiu em silêncio e foi embora sem dizer mais nada. Naquele dia, os rumores se espalharam como vento seco entre as paredes da fazenda.
Alguns diziam que Tempestade estava enfeitiçado. Outros juEla e Tempestade viveram muitos anos juntos, ensinando a todos que o amor e a paciência podem domar até os corações mais selvagens.





