O ar de outubro na Serra da Estrela tem um jeito de cortar direto pela alma.
Não é apenas frio — é uma umidade que penetra nos ossos, carregando o cheiro de resina de pinheiro, folhas molhadas e a promessa de neve. Essa é a primeira coisa que lembro daquela terça-feira. A segunda foi o silêncio.
Chamo-me Mariana Costa. Vivo com a minha avó, Beatriz Costa, numa casa de pedra que está na família desde os tempos dos pastores, nos anos 1930. Estamos tão longe de tudo que o telemóvel perde sinal quilómetros antes de chegar aqui.
Vivemos isolados — plantamos a nossa comida, cortamos a nossa lenha e tratamos das nossas maleitas. A Avó é uma curandeira, do tipo que as pessoas procuram quando os hospitais parecem frios e apressados.
Naquele dia, não esperava visitas. Estava a verificar as armadilhas perto do ribeiro.
A floresta estava estranhamente calada. Não em paz — mas em alerta. Até os pássaros tinham desaparecido. Puxei a faca da bainha, todos os sentidos em tensão.
Cheirei o ribeiro antes de o ver. E então, vi-o.
Um rapaz estava em cima das pedras escorregadias, não teria mais de dez anos, completamente fora de lugar. Vestia um casaco preto de marca que valia mais do que o nosso carro, e sapatos de couro arruinados pela lama do rio. A pele era pálida, o cabelo colado à testa pelo suor gelado.
Mas eram os olhos.
Estavam bem abertos, fitando as árvores, vazios. Como se a luz tivesse sido cortada por trás deles.
“Ói”, chamei. “Miúdo, estás a ouvir-me?”
Nada.
Aproximei-me, acenei a mão à frente do rosto dele. Nem um piscar de olhos. O corpo tremia incontrolavelmente, os lábios azuis de frio.
“Estás gelado”, murmurei.
Quando toquei na sua mão, estava como gelo. Olhei em redor — sem pais, sem caminhantes, sem carros. Apenas a serra.
“Vamos para casa”, disse. “Chamo-me Mariana. Vou ajudar-te.”
Ele estremeceu, mas não resistiu. Tive de o guiar como se fosse uma marioneta, quase carregando-o nos últimos metros.
Quando entrei em casa, a Avó levantou os olhos do fogão.
“Mariana — quem é esse?”
“Encontrei-o no ribeiro. Ele está hipotérmico. E Avó… acho que não consegue ver.”
Ela não fez perguntas. “Tira-lhe a roupa molhada. Vou buscar os remédios.”
Tirámos-lhe as roupas encharcadas, absurdamente caras. Por baixo, era apenas uma criança magra e trémula. Envolvemo-lo em mantas de lã e sentámo-lo perto do lume.
A Avó examinou-lhe os olhos à luz da lamparina. “Os olhos dele funcionam”, disse baixinho. “Foi a mente que os desligou. Cegueira por trauma.”
O frio que senti naquele momento não tinha nada a ver com o tempo.
Durante dias, ele não falou. Só comia se eu lhe desse caldo. Só dormia se eu ficasse por perto, cantarolando canções antigas.
Encontrámos um nome bordado no casaco: Tiago.
Na quarta noite, uma tempestade desabou. O vento uivava em volta da casa.
Então, Tiago gritou.
“NÃO! NÃO OLHES! MÃE, NÃO OLHES!”
Agarrei-o antes que se magoasse. A Avó segurou óleos calmantes sob o nariz dele.
Ele desabou nos meus braços, soluçando. E então — focou.
“O carro”, sussurrou. “Saiu da estrada. A mãe parou de gritar.”
Não ficara cego. Tinha visto demais.
No sexto dia, já comia cozido, ajudava a empilhar lenha, tocava em tudo como se fosse novo. Ri-se uma vez quando o gato perseguiu uma traça.
Sabíamos que teríamos de chamar as autoridades, mas a tempestadeMas quando as estradas reabriram e os helicópteros chegaram, percebemos que a verdadeira cura não estava nos remédios, mas no silêncio da serra e no abraço de quem nunca desistiu dele.





