O rapaz pediu-me para segurar a sua mão enquanto ele morria porque o pai não o faria. Sou um motoqueiro de sessenta e três anos, cheio de tatuagens e com uma barba que me chega ao peito. Já enterrei camaradas de guerra.
Já vi coisas que fariam muitos homens desmoronar. Mas nada me preparou para um menino de sete anos, doente de cancro, a olhar para mim e dizer aquelas palavras.
“Senhor, fica comigo? O meu pai diz que os hospitais o deixam triste e já não vem.”
Conheci o João há três meses numa entrega de brinquedos de caridade. O nosso clube entrega brinquedos no hospital pediátrico todos os Natais. Faço isto há vinte e dois anos. Entras, distribuis alguns ursinhos, tiras fotos e sais a sentir-te bem contigo mesmo.
Mas o João era diferente.
Estava sentado sozinho no quarto, enquanto todas as outras crianças tinham família à volta. Nem balões, nem cartões, nem pais a segurar-lhe a mão.
Apenas um menino careca, de bata hospitalar, abraçado a um elefante de peluche desgastado.
Parei à porta. “Olá, amigo, queres um urso?”
Ele olhou para mim com aqueles olhos azuis enormes. Não sorriu. Não esticou a mão para o brinquedo. Apenas me fitou, como se tentasse perceber se eu era real.
“Tens medo de mim?”, perguntei. As crianças costumam ter, no início. Não tenho propriamente um ar amigável.
Ele abanou lentamente a cabeça. “Não. Pareces os motoqueiros da televisão. Os que protegem as pessoas.”
Algo rachou dentro do meu peito naquele momento.
“Onde está a tua mãe e o teu pai, pequenino?”
Ele baixou os olhos para o elefante. “A mãe morreu quando eu tinha quatro anos. Também de cancro. O pai diz que não consegue ver outra pessoa que ama morrer. Portanto, fica em casa.”
Fiquei ali, petrificado. Aquele menino—aquele menino a morrer—tinha sido abandonado pela única pessoa que devia estar ao seu lado neste inferno.
“Como te chamas?”, perguntei.
“João. E tu?”
“Tomás. Mas os meus amigos chamam-me Urso.”
Pela primeira vez, ele quase sorriu. “Porque és grande como um urso?”
“Isso mesmo, amigo.”
Ele olhou para mim por um longo momento. Depois, disse algo que mudou a minha vida para sempre:
“Urso, queres ser meu amigo? As enfermeiras são simpáticas, mas estão sempre ocupadas. E eu fico com muito medo à noite.”
Devia ter dito que não. Devia ter-lhe dado um brinquedo e seguido em frente, como fazia com todas as outras crianças. Tinha a minha própria vida. Os meus próprios problemas. Não precisava de me apegar a uma criança a morrer.
Mas olhei para aquele menino sozinho na cama do hospital e vi-me há sessenta anos. Circunstâncias diferentes, mas a mesma solidão.
O meu pai era um bêbado que não se importava. A minha mãe trabalhava em três empregos e nunca estava em casa. Cresci sozinho e cheio de raiva, e tornei-me um homem que não confiava em ninguém.
Até encontrar os irmãos no clube. Até encontrar família.
O João não tinha irmãos. Não tinha família. Tinha um elefante de peluche e um pai demasiado destroçado para aparecer.
“Sim, amigo”, ouvi-me dizer. “Serei teu amigo.”
Voltei no dia seguinte. E no outro. E no outro.
As enfermeiras desconfiaram no início. Quem era aquele motoqueiro de ar assustador que aparecia todos os dias para ver uma criança a morrer? Fizeram uma verificação do meu passado. Ligaram às minhas referências. Confirmaram o meu trabalho de caridade.
Mas o João não se importava com nada disso. Importava-se apenas que eu aparecesse.
“Urso, voltaste!”, disse ele, o rosto a iluminar-se quando entrei no quarto no terceiro dia.
“Disse que viria, amigo.”
Levei-lhe uma mota de brincar. Mostrei-lhe fotos da minha verdadeira mota. Contei-lhe histórias sobre andar pelas serras. Ele ouvia como se lhe estivesse a falar do paraíso.
“Quando eu melhorar, levas-me a dar uma volta?”, perguntou.
Olhei para o seu relatório quando ele não estava a ver. Neuroblastoma em fase quatro. Taxa de sobrevivência inferior a quinze por cento. Os médicos já tinham dito ao pai que não havia mais nada a tentar.
“Claro que sim, amigo”, respondi. “Quando melhorares, levo-te à volta mais longa da tua vida.”
Era uma mentira. Ambos sabíamos que era mentira. Mas, por vezes, as mentiras são mais gentis que a verdade.
Na segunda semana, conheci o pai do João. Apareceu numa terça-feira à tarde, enquanto eu lia ao João uma história sobre um cavaleiro valente que lutava contra dragões.
O homem parecia um fantasma. Magro. Pálido. Olheiras fundas. Ficou à porta a olhar para mim como se eu tivesse invadido a sua casa.
“Quem és tu?”, perguntou, a voz dura, defensiva.
“Chamo-me Tomás. Sou amigo do João.”
“Pai!”, o João tentou sentar-se, contorcendo-se de dor. “Este é o Urso! Ele é motoqueiro! Vem ver-me todos os dias!”
O rosto do homem distorceu-se. “Todos os dias? Tens vindo ver o meu filho todos os dias?”
“Sim, senhor.”
“Porquê?”
Olhei para o João, depois para o pai. “Porque alguém tinha de vir.”
O maxilar do homem apertou-se. Por um momento, pensei que me ia bater. Em vez disso, virou-se e saiu.
O rosto do João desfO pai do João não voltou mais, mas no último dia, quando o pequeno guerreiro partiu, encontrei-o no café da esquina, a beber sozinho, e percebi que o verdadeiro cancro era o medo de amar.





