O bloco de maternidade fervilhava naquela manhã. Num grande hospital no coração de Lisboa, o silêncio era um luxo raro. O Dr. João tinha acabado de realizar uma cesariana quando recebeu um chamado urgente: uma mulher em trabalho de parto avançado, quase totalmente dilatada, precisava do médico de plantão imediatamente.
Ele trocou rapidamente o avental e entrou na sala de parto. Mas quando seus olhos pousaram na paciente, ele congelou.
Era Carolina — sua ex-amante, a mulher que esteve ao seu lado por sete anos antes de desaparecer sem uma única explicação. Agora ela estava ali, encharcada de suor, o ventre contraindo-se, segurando o telefone com força. Quando o reconhecimento atravessou seu olhar, medo e incredulidade se misturaram.
“Você… é o médico-chefe?” sussurrou, a voz frágil.
João não disse nada. Apenas acenou brevemente e empurrou a maca para frente.
O parto rapidamente se tornou perigoso. A pressão de Carolina despencou, os batimentos do bebê enfraqueceram, e uma intervenção imediata foi necessária. Mesmo assim, João manteve-se firme, guiando sua equipe tensa, mas coordenada, através da crise.
Após quase quarenta minutos exaustivos, o bebê nasceu.
Quando João ergueu a criança em seus braços, paralisou mais uma vez.
O recém-nascido tinha os mesmos olhos escuros e profundos, as mesmas covinhas que ele mesmo tinha quando menono.
Seu pulso acelerou. Os sons da sala pareceram desaparecer. Então, notou—uma pequena marca de nascença em forma de lágrima no ombro do bebê. A marca rara da família, passada de seu avô para seu pai, e depois para ele.
A enfermeira estendeu as mãos para pegar o bebê. João hesitou antes de entregá-lo. Ela acariciou a face do menino com ternura antes de levá-lo para ser limpo e embrulhado.
Quando João se virou novamente, Carolina estava exausta na cama, o olhar desviado.
“Por que… por que nunca me contou?” perguntou ele, a voz rouca.
Seus lábios tremeram enquanto as lágrimas escapavam.
“Eu… eu quis contar. Mas tudo desabou ao meu redor. Meus pais me pressionaram, você estava afogado no trabalho… Pensei que você me odiaria, que me abandonaria…”
João permaneceu em silêncio até que a enfermeira devolveu o recém-nascido, agora enrolado e aquecido. Enquanto segurava seu filho, suas mãos tremiam. Uma onda de reconhecimento e revelação o invadiu, despertando algo primordial—o instinto de um pai.
“Carolina… não importa o que aconteceu antes, eu nunca vou abandonar você. Nem nosso filho,” declarou, a voz firme e resoluta.
Finalmente, ela ergueu os olhos para ele. Vermelhos de tanto chorar, mas brilhando com uma esperança frágil.
Do corredor, veio o choro do recém-nascido—anunciando não apenas sua chegada, mas o renascimento de duas almas que um dia se haviam perdido.