A tigela de barro escorregou das pequenas mãos da Inês e bateu com estrondo no chão de terra. Mas ela mal deu por isso. Os olhos estavam fixos no homem a quem chamavam de Louco Duarte, encolhido num canto, a tremer, os lábios a moverem-se em palavras silenciosas que só ele ouvia. “Por favor”, sussurrou, empurrando a tigela com o pé descalço. “Tens de comer.”
Os outros miúdos riam-se do outro lado da rua poeirenta. “Lá está a Inês a falar com o Duarte Maluco”, gritou um rapaz. “Deve ser maluca também.” Inês ignorou-os. Como sempre fazia. Todas as manhãs, antes do amanhecer, enquanto a aldeia ainda dormia, guardava metade do pequeno-almoço, por vezes a sua única refeição, e levava-a ao homem a quem todos chamavam Louco Duarte.
Ele vivia debaixo da velha ponte perto do rio, vestindo roupas rasgadas que outrora teriam sido finas, cobertas de terra e vergonha. Ninguém sabia de onde viera. Aparecera há dois anos a falar frases desconexas, a rir-se de coisas que ninguém via, por vezes a gritar para o céu. Os anciãos da aldeia diziam que estava amaldiçoado. As mães puxavam os filhos para longe quando ele vagueava pelo mercado.
Os rapazes atiravam-lhe pedras, mas a Inês via algo diferente. Via o modo como as mãos dele tremiam quando tinha fome. Via a tristeza escondida por trás dos olhos confusos. Via uma pessoa. “Está aqui”, disse baixinho, colocando a tigela mesmo à frente dele. “Fui eu que fiz. Está bom.” A cabeça de Duarte ergueu-se de repente.
Por um segundo, os olhos dele clarearam e ele fitou-a. Olhou-a realmente, com algo parecido com gratidão. Depois, o nevoeiro voltou e ele agarrou na tigela, comendo como um animal esfomeado. Inês sorriu. “Trago-te mais amanhã.” Virou-se para sair, com o estômago a roncar. Os outros órfãos da casa da Mãe Bênção estariam agora a acabar o pequeno-almoço.
Ia ter de explicar outra vez porque é que não tinha fome. Porque é que dava a sua comida ao louco que toda a gente odiava. “Estás a desperdiçar a tua bondade.” A Mãe Bênção disse-lhe isso naquela tarde, abanando a cabeça. A Mãe Bênção dirigia o orfanato, um pequeno lar onde 12 crianças dormiam em esteiras e partilhavam duas refeições por dia, quando havia. Era rigorosa mas justa.
O seu rosto estava marcado pelo peso de cuidar de crianças que ninguém queria. “Esse homem está para lá da ajuda. Inês, guarda as tuas forças para ti.” “Mas, Mãe, e se ele tiver fome?” “Todos temos fome, menina.” A voz da Mãe Bênção suavizou-se. “Tens o maior coração que já vi, mas o mundo vai parti-lo se não tiveres cuidado.”
Inês anuiu, mas não parou. Não conseguia. Algo dentro dela não o permitia. A aldeia de Riofundo ficava na fronteira do reino, onde as leis do rei pareciam distantes e a sua misericórdia ainda mais. A maioria das pessoas aqui sobrevivia. Não viviam. Trabalhavam nos campos, vendiam produtos no mercado e tentavam não atrair problemas.
E o Duarte Maluco era problema. “Ele está pior”, disse o Sr. Salomão uma noite na praça da aldeia. Era um comerciante rico, gordo e ruidoso, o tipo de homem que acreditava que o seu dinheiro o tornava importante. “Assustou a minha filha ontem, só a fitar com aqueles olhos selvagens. Tem de se fazer alguma coisa.” “O que sugere?”, perguntou o Regedor Okoy, o chefe da aldeia.
Um homem magro com um rosto afiado e ambições afiadas. “Corram-no daqui. Ele não pertence a este lugar. Provavelmente é um ladrão ou coisa pior.” “Ele só está confuso”, disse Inês baixinho, da beira da multidão. Ia a passar, a caminho de casa, mas não conseguiu ficar calada. Todos se viraram para a encarar. Uma rapariga órfã de 12 anos, magrinha e pequena, com remendos no vestido e lama nos pés. O Sr. Salomão riu-se.
Um som cruel. “Fala a órfã. Diz-me, rapariga, quando ele magoar alguém, vais assumir a responsabilidade?” “Ele não vai magoar ninguém”, disse Inês, com a voz firme, apesar de o coração bater com força. “Ele só está perdido.” “Perdido?” O Sr. Salomão aproximou-se, a sua sombra a cair sobre ela. “Ele é louco. Perigoso. És uma criança tola a brincar com o fogo.” O Regedor Okoy ergueu a mão.
“Chega. A menina não quer mal. Mas o Salomão tem razão. Devemos vigiar este louco de perto. Se causar problemas a sério, expulsamo-lo.” Inês sentiu o peito apertar. “Expulso” significava espancado, enxotado para a floresta, abandonado à morte. Já vira acontecer antes a pessoas que a aldeia decidira que eram problemas.
Naquela noite, não conseguiu dormir. Olhou para o teto do orfanato, a ouvir a respiração das outras crianças, e tomou uma decisão. Iria proteger o Duarte de alguma forma. Na manhã seguinte, levou-lhe comida como sempre. Mas desta vez, levou também um balde de água e um trapo. “Deixa-me ajudar-te”, disse com gentileza. Duarte olhou para ela, os olhos a cintilar de confusão.
Mas não se afastou quando ela lhe limpou cuidadosamente o rosto e as mãos. Por baixo da sujidade, conseguia ver que ele era mais novo do que pensava, talvez 30 anos, com traços fortes e cicatrizes nos pulsos que pareciam antigas e profundas. “Quem és tu?”, sussurrou, não esperando resposta. “Estilhaçado”, disse ele subitamente, a palavra clara e nítida.
“Estilhaçado, estilhaçado.” O coração de Inês contraiu-se. “Não estás estilhaçado. Só estás magoado.” Nas semanas seguintes, Inês caiu numa rotina. Alimentar o Duarte. Limpá-lo quando ele permitia. Sentar-se com ele quando parecia assustado. Falava-lhe do seu dia, dos outros órfãos, dos seus sonhos de ser professora um dia para poder ajudar crianças como ela.
Não sabia se ele entendia, mas não importava. Ele estava a ouvir. Percebia pela forma como a respiração dele abrandava, pelo modo como o tremor parava quando ela estava por perto. Depois, uma manhã, tudo mudou. Inês chegou à ponte e encontrou Duarte de pé, realmente erecto, a olhar para o rio com uma expressão que nunca vira antes, quase pensativa.
“Duarte”, chamou suavemente. Ele virou-se para ela e, pela primeira vez, os olhos estavam completamente límpidos. “Porquê?”, perguntou, a voz rouca da falta de uso, mas firme. “Porque é que me ajudas?” Inês pestanejou, chocada. Ele nunca dissera uma frase completa antes. “Porque… porque precisavas de ajuda.” “Toda a gente me odeia.” “Eu não.”
O rosto dele procurando mentiras, procurando truques. Mas Inês apenas sorriu. Aquele mesmo sorriso gentil que sempre lhe dera. Algo na expressão de Duarte quebrou. Os olhos encheram-se de lágrimas e ele virou-se rapidamente, envergonhado. “Não te vou magoar”, disse baixinho. “Prometo. Não vou. Não vou magoar ninguém.” “Eu sei”, disse InO rei Duarte, com a mão da rainha Inês sobre a sua, governou para sempre com uma coroa de bondade, lembrando a todos que a maior fortuna de Portugal não era o ouro, mas o coração do seu povo.





