**Diário de um Pai**
Mármore impecável, lustres de cristal, quadros de pintores famosos nas paredes tão sem vida quanto ele. Tudo reluzia, mas nada respirava. A fortuna levara-o longe: investimentos, prédios, viagens, luxos. Mas o que nunca conseguira comprar era o que mais desejava: os olhos dos seus filhos. Tomás e Duarte, gémeos de 8 anos, tinham nascido cegos. Os médicos disseram, no início, que era uma cegueira passageira, algo que podia melhorar com terapias, cirurgias experimentais, tratamentos caros no estrangeiro. Henrique gastara milhões em cada tentativa. Assinara papéis desesperados, voara com eles de país em país à procura de uma resposta.
O resultado era sempre o mesmo: esperança, desilusão, silêncio. A mansão transformara-se num casulo vazio. Os gémeos passavam os dias com tutores particulares que lhes ensinavam braille, exercícios e jogos adaptados, mas o que dominava tudo era um sentimento de prisão. As crianças não riam como as outras. Não corriam pelos corredores, não se maravilhavam com as cores dos brinquedos, nem apontavam para nada. A casa não tinha gritos infantis, perguntas inocentes, nem cores. Henrique, parado diante das janelas, contemplava o jardim banhado pelo sol da manhã. Tudo estava verde e vibrante, mas o que lhe doía era o contraste cruel: os seus filhos nunca veriam aquilo. Foi então que ouviu os passos da sua assistente, Madalena, a aproximar-se.
—Senhor Lopes — disse, com um respeito ensaiado —, a nova ama chegou.
Henrique virou-se lentamente. Já tinham passado quatro em menos de dois anos. Todas saíam exaustas ou frustradas. *“Não sei lidar com eles”*, diziam. *“É demasiado difícil.”* E, no fundo, ele não as culpava.
—Que entre.
A porta abriu-se e apareceu Inês, uma jovem de rosto simples, cabelo escuro apanhado numa trança e olhos que pareciam observar tudo com uma serenidade rara. Não se vestia como as amas anteriores, que chegavam impecáveis com roupas caras. Trazia um vestido modesto, sapatos confortáveis e uma mala gasta ao ombro. Henrique olhou-a de cima a baixo, friamente.
—Então, é a tal recomendada pela fundação?
—Sim, senhor Lopes. Inês Pereira. Trabalhei com crianças com deficiência sensorial — respondeu, sem hesitar.
Henrique apertou os olhos.
—Aviso-a desde já. Não espero milagres. Os meus filhos não precisam de contos de fadas. Precisam de disciplina, estrutura, ordem. Se o que quer é enchê-los de falsas esperanças, pode ir-se embora já.
Inês manteve o olhar firme.
—Não venho dar esperanças falsas, senhor Lopes. Mas acredito que os seus filhos podem aprender a ver… de outra forma.
O silencio que se seguiu foi pesado. Madalena pestanejou, surpresa. Ninguém costumava contradizer o milionário na sua própria casa. Henrique, tenso, soltou uma risada seca.
***Lição de hoje:*** Às vezes, enxergamos menos do que aqueles que nunca abriram os olhos. A verdadeira vida não está no que se compra, mas no que se sente.





