Capítulo 1: O Pedido
O calor era uma prensa insuportável. Ondulava sobre o asfalto rachado da estação de serviço abandonada, um posto esquecido num trecho solitário da estrada alentejana. Os únicos sons eram o tinir do motor a arrefecer e o grito distante de uma águia a circular no céu lavado de branco.
Seis homens, todos além dos cinquenta, estavam junto às suas motas. Eram os “Grãos de Areia” MC, um clube cujos membros não eram definidos por cadastros criminais, mas pelas suas fichas militares. Os coletes de couro—chamados “capas”—estavam pesados de emblemas que contavam histórias de lugares como Angola, Timor e o Golfo.
João “Lobo” Silveira, o presidente do clube, desdobrou um mapa em cima do banco da sua Harley. Aos sessenta e cinco anos, era largo como um armário antigo, com uma barba grisalha que lhe chegava ao peito e braços como troncos de sobreiro. Um sargento reformado dos Fuzileiros, mantinha-se com a autoridade silenciosa de quem já vira tudo e não se impressionava com nada.
“O GPS diz que faltam trinta quilómetros para o desvio,” murmurou “Risco,” o mais novo do grupo, com cinquenta e dois anos, a olhar para o telemóvel. “Esta ‘Corrida pelos Esquecidos’ é mesmo no meio do nada.”
“É esse o ponto, Risco,” resmungou “Padre,” o capelão do grupo, que servira na guerra colonial. “Andamos por aqueles que o Estado esqueceu. Eles não vivem no Marquês de Pombal.”
Lobo apenas grunhiu, traçando a rota no mapa com um dedo grosso. Aquela corrida de caridade era a sua peregrinação anual, uma maneira de ver os irmãos mais velhos, levar ajuda a famílias em dificuldades e lembrar-se do código que ainda viviam. Um código de honra, um pacto que o mundo, com os seus telemóveis e lealdades efémeras, parecia ter esquecido.
Estavam prestes a montar, o calor a empurrá-los para a estrada, quando um movimento perto do contentor chamou a atenção do Padre.
“Esperem,” disse ele, baixinho.
Lobo levantou os olhos. Uma pequena figura esgueirou-se de trás do contentor. Era um miúdo, não teria mais de oito anos, magro como um palito. Vestia um pijama azul com foguetões de desenhos animados, demasiado fino para o frio da manhã alentejana, quanto mais para a vulnerabilidade daquela situação. Estava descalço, os pés sujos de terra.
Os motards congelaram. Eram homens grandes, intimidantes, e a sua presença costumava fazer as pessoas desviar o olhar. Mas o miúdo não hesitou. Correu direto ao homem mais imponente ali presente.
Correu direto a Lobo.
O miúdo, a tremer tanto que os dentes batiam, esticou a mãozinha suja e puxou a orla do colete de couro de Lobo.
“Por favor, senhor,” sussurrou, a voz a falhar de um medo visceral. “Por favor. Tem que me prender. Agora mesmo.”
Os Grãos de Areia trocaram olhares perplexos. “Bloco,” um homem de constituição monumental que raramente falava, deu mesmo um passo atrás.
Lobo, com movimentos surpreendentemente suaves para um homem do seu tamanho, agachou-se, ficando à altura do miúdo. Os joelhos estalaram, mas ele ignorou.
“Não sou polícia, filho,” disse Lobo, a voz rouca como gravilha. “Somos só… viajantes. Por que é que queres ser preso?”
Os olhos do miúdo eram enormes, cheios de um pânico que ainda não se transformara em lágrimas. Estava com demasiado medo para chorar.
“Porque,” gaguejou o miúdo, puxando o colete de Lobo com mais força, como se tentasse arrastá-lo fisicamente. “Porque… ele disse… que os meninos maus vão para a cadeia. E se eu estiver na cadeia… ele não me encontra.”
O miúdo parou, respirando fundo.
“Ele não… ele não pode bater mais na mamã.”
As palavras pairaram no ar seco e quente. O tinir do motor parou. O mundo ficou em silêncio.
Os olhos de Lobo, da cor de ganga desbotada, endureceram. Ele não se moveu, mas toda a sua postura mudou. A confusão desaparecera, substituída por algo frio, antigo e absoluto.
Devagar, com cuidado, esticou a mão e pousou-a no ombro do miúdo. O miúdo estremeceu, um movimento brusco e reflexo, antes de perceber que não estava a ser agredido.
“Como te chamas, filho?” perguntou Lobo, a voz perigosamente suave.
“Tomás.”
“Quem é que não te pode encontrar, Tomás?”
“Dionísio. O meu… o meu padrasto.”
Enquanto Tomás falava, mexeu-se. O movimento puxou o colo solto da camisa do pijama, revelando a pele pálida do ombro e do braço.
Lobo viu.
Estava fraco, um mapa amarelado de dor antiga. Mas a forma era inconfundível. Era o contorno desvanecido de uma mão adulta, os dedos abertos, onde tinha agarrado e apertado, com força.
A visão de Lobo estreitou-se. O calor, a estação de serviço, a corrida de caridade—tudo desapareceu. Ele estava de volta a um mundo de preto e branco, um mundo de certo e errado, de protetores e predadores. E um predador acabara de cruzar a sua linha.
“Doutor,” disse Lobo, sem tirar os olhos de Tomás. “Dá água ao miúdo. E um chocolate. Agora.”
Olhou novamente para a criança aterrorizada. “Tomás,” disse, e o miúdo voltou a estremecer com o aço na sua voz. “Vieste ao sítio certo. Mas enganaste-te numa coisa.”
A mão de Lobo repousou na cabeça do miúdo, uma bênção pesada e estranha.
“Não estamos aqui para te prender. Estamos aqui para prender *ele*.”
Capítulo 2: Quarto 7
“Doutor”—que fora enfermeiro militar nos anos 90—moveu-se com uma eficiência que desmentia a idade. Voltou da loja em segundos, entregando a Tomás uma garrafa de água e um chocolate. O miúdo olhou para o doce como se fosse um objeto estranho, depois, agarrando a água, começou a falar num sussurro apressado.
“Ele foi despedido,” murmurou Tomás, os olhos a espreitarem para a estrada, como se esperasse que um monstro aparecesse. “Da obra. Agora bebe aquela aguardente má. O dia todo. Nós fugimos. A mamã meteu-nos num autocarro, mas ele encontrou-nos. Ele está… está ‘à nossa procura’, disse. Disse que ia dar-nos uma ‘lição’.”
Lobo continuou de joelhos, criando uma parede sólida entre Tomás e o resto do mundo. “Onde é que estão a viver, Tomás?”
“Na pensão. Aquela com o letreiro do cacto partido. A… a Pensão Cactus. Mais adiante. Quarto 7.”
O nome atingiu os Grãos de Areia como um soco. A Pensão Cactus era um lugar para onde se ia quando não havia mais opções. Um antro conhecido por droga, miséria e passageiros de passagem.
“Ele encontrou-nos ontem à noite,” continuou Tomás, a voz tão baixa que Lobo teve de se inclinar. O miúdo não tocara no chocolate, mas agarrava a garrafa com tanta força que os nós dos dedos branqueavam. “Ele estava… a gritarE, quando o sol se pôs sobre as planícies alentejanas, os Grãos de Areia montaram nas suas motas avariadas, sabendo que, mesmo com as máquinas partidas, a missão estava cumprida e um novo dia amanheceria para Tomás e sua mãe, longe do medo.





