A sala de artes do Colégio Privado Elite de Lisboa sempre cheirava a tinta a óleo importada e a lápis de cedro acabados de afiar. Era um perfume fino, elegante, quase arrogante… o tipo de aroma que, para João Miguel Silva, o único bolseiro da turma, significava uma coisa: dinheiro que não era seu.
Enquanto os colegas abriam estojos italianos que custavam mais do que a renda do quartinho onde vivia com a mãe, João escondia as mãos debaixo da mesa. Não por vergonha do seu trabalho, mas das unhas escuras, manchadas de carvão. Tentara lavá-las mil vezes, mas os traços do fogão a lenha, do lume onde a mãe cozinhava o feijão, recusavam-se a sair.
O professor António Nunes percorria as filas com a postura rígida e o olhar afiado. Era daqueles mestres que não ensinavam, mas julgavam. E para ele, a arte não era talento, era privilégio.
—Tema final: “A essência da alma” — anunciara semanas antes —. Quero técnica, composição e, acima de tudo, materiais dignos.
E a turma obedeceu. Tela esticada como tambor, tintas brilhantes, pincéis de pelo macio. Obras que gritavam “eu pertenço aqui”. João, porém, trouxera uma folha de papel pardo, amarelada pelas dobras, e um retrato feito inteiramente com carvão.
Não carvão artístico.
Pedacinhos que haviam caído do fogão onde a mãe aquentava o pão.
Nele, estava Dona Maria Silva: o rosto cansado, mas sorridente, as rugas como mapas de trabalho, o olhar de quem nunca se rende. João desenhara cada linha com precisão que não vinha da escola, mas do amor. Colocara o coração ali, como quem arranca um pedaço do peito e o deixa viver no papel.
Quando o professor Nunes parou diante da sua mesa, a sala silenciou-se. Daquele silêncio que pesa.
Nunes pegou a folha com dois dedos, como se tocasse algo impuro. Levantou-a para todos verem… mas não para elogiar.
—O que é isto, João Miguel? — perguntou com um sorriso desdenhoso —. Eu pedi arte, não sujidade. Achas que podes vir à minha aula e insultar-me com restos de carvão?
Uma risada escapou do fundo da sala. Depois outra.
João sentiu os olhos arder. Mordeu o lábio para não chorar. Não queria dar-lhes esse gosto.
—É… é a minha mãe, professor — sussurrou —. Não tive dinheiro para lápis… mas usei o que tinha para mostrar a alma dela.
Nunes soltou uma gargalhada seca e cruel.
—Alma? O único que vejo aqui é lixo. Isto suja os dedos. Isto não é técnica, é pobreza. Pessoas como tu acham que a arte nasce do desleixo, mas a arte exige investimento, requinte… coisas que, claramente, te faltam.
João sentiu o mundo afundar-se-lhe sob os pés. Os olhos dos colegas perfuravam-no. Alguns com pena, outros com diversão.
E então, Nunes fez o pior.
Devagar. Deliberadamente. Para doer mais.
Rasgou o desenho ao meio.
Depois em quatro.
Depois em oito.
Os pedaços caíram sobre a mesa como confete de vergonha.
—Refazes com materiais decentes ou chumbas. Agora… limpa esta porcaria e sai da minha aula.
As mãos de João tremiam ao juntar os fragmentos. Parecia que arrancaram algo mais que papel. Como se tivessem rasgado o rosto da mãe em carne viva.
Correu para fora sem olhar para trás. No pátio, o ar cheirava a chuva recente e a terra molhada. Sentou-se no banco de pedra da praça em frente ao colégio e, chorando, tentou colar os pedaços como se pudesse remendar o próprio coração.
Mas o vento — cruel como quem também sabe humilhar — arrancou um fragmento das suas mãos. Rodou pela calçada e parou aos pés de um sapato de salto alto.
Uma mulher abaixou-se.
Vestia um casaco bege impecável, óculos escuros, e uma mala elegante que parecia pesar mais pelo prestígio que pelo couro. Pegou o papel com cuidado e, ao vê-lo, ficou imóvel.
Era apenas um pedaço: o olho da mãe de João.
Feito de carvão rústico, imperfeito, mas cheio de vida. Havia dor, ternura, verdade.
A mulher ergueu o olhar para o rapaz.
—Foste tu… que fizeste isto? — perguntou, voz suave, mas firme.
João enxugou o rosto com a manga, envergonhado.
—Sim… mas já não importa — murmurlou. — Já o partiram.
A mulher sentou-se ao seu lado, sem se importar com o chão.
—Importa — disse, com firmeza. — Mais do que imaginas.
Tirou os óculos. Os olhos brilhavam de indignação.
—Chamo-me Catarina Mendes — acrescentou. — Crítica de arte e editora cultural d’O Jornal Nacional.
João olhou para ela como se tivesse dito que era astronauta.
—O que… o que está a fazer aqui?
Catarina não respondeu. Tirou fita-cola da mala — como se o mundo estivesse sempre pronto a partir coisas e ela, a repará-las — e pediu-lhe os outros pedaços. João entregou-os com mãos trémulas.
Ali, no banco, sob a luz pálida do fim da tarde, Catarina reconstruiu o retrato como um puzzle ferido. As cicatrizes do papel ficaram visíveis, como veias.
Depois, tirou uma fotografia com o telemóvel, tão nítida que João temeu que o desenho, finalmente visto, se desfizesse.
Catarina guardou o desenho com cuidado.
E fez-lhe apenas uma pergunta.
—Quem fez isto? Quem te partiu o desenho?
João engoliu em seco. Duvidou. Dizê-lo era desafiar um gigante. Mas o gigante já o tinha esmagado. O que mais podia perder?
—O professor Nunes — murmurou. — Disse que era lixo.
Catarina apertou os lábios.
—Não é lixo — sussurrou. — É das coisas mais verdadeiras que vi em anos.
Nessa noite, João chegou a casa com os olhos inchados. Dona Maria esperava-o com um prato de bacalhau cozido e batatas. Ao ver-lhe o rosto, preocupou-se.
—Que aconteceu, meu filho?
João quis mentir. Quis dizer “nada”. Mas a voz falhou.
—Partiram-me o desenho… o que fiz de ti.
Dona Maria abraçou-o forte, com mãos calejadas.
—O papel parte-se, filho — disse-lhe ao ouvido. — Mas o que tu és… isso ninguém o parte.
João não conseguiu dormir. O peito pesava-lhe como se o carvão lhe tivesse entranhado na alma.
Na manhã seguinte, o professor Nunes entrou na sala com a habitual arrogância, trazendo um jornal debaixo do braço. Parecia satisfeito, como se a crueldade fizesse parte da disciplina.
—Hoje falaremos da nova exposição na Gulbenkian — começou, mas deteve-se.
Algo estava diferente.
A sala estava em silêncio. Mas não era o silêncio habitual. Era um silêncio carregado, expectante. Todos olhavam para o professor… e depois para João.
Nunes franziu a testa.
—Que se passa? Porque me olham assim?
A porta abriu-se.
Entrou a diretora,Entrou a diretora, Luísa Neves, com um olhar severo, seguida de Catarina Mendes, que depositou sobre a mesa do aluno o jornal da manhã, onde o retrato rasgado de Dona Maria, reconstruído e iluminado, estampava a capa com a manchete: **”A ARTE QUEBRADA: QUANDO UM PROFESSOR TENTOU CALAR O TALENTO E REVELOU A PRÓPRIA PEQUENEZ”**, e ali, naquele instante, João percebeu que a humildade do carvão havia, afinal, vencido a arrogância da tinta fina.





