**Capítulo 1: A Chamada Que Mudou Tudo**
O telemóvel descartável a vibrar no bolso do colete parecia um ataque cardíaco. Estava deitado na terra, três dias em patrulha num lugar que não posso nomear, a duzentos quilómetros a sul da fronteira. O pó aqui tem sabor a cobre e a gasolina velha. Não era suposto atender. O protocolo exigia silêncio absoluto, a menos que estivéssemos sob fogo direto. Mas este não era o satélite. Era o telemóvel descartável. E o toque específico só significava uma coisa: “Emergência – Casa.”
Rastejei de volta para as sombras da ruína que servia de esconderijo, verificando o perímetro uma última vez antes de atender. As minhas mãos tremiam, não pelo medo do cartel que estávamos a vigiar, mas pelo terror do que poderia estar a acontecer nos subúrbios de Lisboa.
“Inês?” sussurrei, a voz rouca por causa da desidratação. “Está tudo bem? Houve uma invasão? Preciso de ativar o protocolo?”
“É o Tomás,” a voz da minha mulher partiu-se. Estava a chorar. Não era o choro assustado que já conhecia e sabia lidar. Era diferente. Era o choro de raiva, exaustão e desespero. “Gonçalo, tens de voltar para casa. Não aguento mais. A escola… vão expulsá-lo.”
O sangue gelou-me nas veias, congelando o suor do pescoço. “Expulsá-lo? Está no primeiro ano, Inês. Tem seis anos. O que raio poderia ter feito? Bateu em alguém? Levou uma faca?”
“Não,” soluçou, a voz a falhar-lhe na garganta. “Ele contou a verdade. E ninguém acredita nele.”
Tudo começou duas semanas antes. Inês explicou-me entre lágrimas. O trabalho era simples: “Desenha o que os teus pais fazem.” Uma atividade comum. A maioria das crianças desenhou pastas, batas de médico, camiões dos bombeiros ou computadores.
O Tomás desenhou um homem de roupa tática a saltar de um helicóptero. Desenhou um distintivo que viu uma vez na minha gaveta. Desenhou uma bandeira. Desenhou os óculos de visão noturna que lhe deixei experimentar antes de partir.
Quando se levantou para apresentar o desenho, a professora Santos—que se orgulhava do seu “realismo” e “ensino sem fantasias”—cortou-o. Não elogiou o desenho. Não perguntou detalhes. Perguntou-lhe porque é que desenhava personagens de videojogos em vez da família real.
O Tomás, o meu corajoso e teimoso miúdo, olhou para ela e disse: “Esse é o meu pai. Ele é um Fantasma. Ele apanha os monstros para não virem a tua casa.”
A turma riu-se. Um miúdo chamado Rodrigo, o típico valentão que aprende crueldade em casa e atinge o auge na escola primária, gritou que o pai do Tomás provavelmente estava na prisão e era por isso que nunca aparecia para o buscar. Era por isso que o Tomás era sempre o último à porta da escola.
**Capítulo 2: O Limite**
“Chamaram-me hoje para uma reunião, Gonçalo,” continuou a Inês, a voz a tremer de indignação. “A professora Santos, a diretora e a psicóloga. Sentaram-me naquelas cadeiras minúsculas de plástico que te fazem sentir uma criança e disseram-me que o Tomás mostra sinais de ‘mecanismos de coping delirantes.'”
Fechei os olhos, encostando a cabeça à parede de betão degradada. “Mecanismos de coping delirantes,” repeti.
“Disseram que está a criar uma figura paterna fantasiosa para lidar com o trauma de… seja o que for que pensam que fazes. Acham que nos abandonaste, Gonçalo. Ou que estás na cadeia.”
Agarrei o telemóvel com tanta força que o plástico rangeu. “O que lhes disseste?”
“Disse a verdade! Disse que serves o país. Disse que o teu trabalho é confidencial. Disse que és um herói que não vê a cama há seis meses porque os mantém a salvo.”
“E?”
“A professora Santos revirou os olhos, Gonçalo. Revirou-os mesmo. Disse: ‘Minha senhora, é doentio alimentar as mentiras do rapaz. Se o pai é um segurança ou está ausente, diga-o. Temos recursos para mães solteiras. Mas não deixe que ele perturbe a minha turma com histórias de helicópteros e missões secretas. É patético.'”
Patético.
A palavra ecoou no esconderijo vazio, mais alta que o vento lá fora.
“Ela disse ao Tomás,” sussurrou a Inês, a dor na voz a cortar-me como uma faca. “Disse-lhe que se mentisse mais uma vez, estava fora. Fez-o ficar em frente da turma e pedir desculpa por ‘inventar histórias.’ Fez o nosso filho dizer que era um mentiroso, Gonçalo. Ele chegou a casa e atirou o desenho para o lixo. Perguntou-me… perguntou-me se o Rodrigo tinha razão. Perguntou se não o amavas.”
Algo dentro de mim partiu-se. Não era a raiva de um soldado; era a fúria primitiva de um pai. Olhei para o relógio. A equipa de extração estava marcada para as 06h00 do dia seguinte. A missão estava concluída. Os alvos neutralizados. Tecnicamente, tinha licença a partir de 48 horas.
Mas 48 horas eram demasiado. O meu filho estava a sangrar emocionalmente, e eu não estava lá para estancar a ferida.
“Inês,” disse, a voz baixa e perigosamente calma. “Quando é a próxima assembleia de escola?”
“Sexta-feira,” fungou. “O ‘Dia do Desporto’ no campo de futebol. Toda a escola vai estar lá. Porquê?”
“Não te preocupes com o porquê,” respondi. “Apenas garante que o Tomás lá está. E que vá bem vestido. Diz-lhe… diz-lhe que o Fantasma está a chegar.”
“Gonçalo, o que vais fazer?”
“Vou ensinar à professora Santos uma lição sobre a realidade.”
Desliguei. Depois, marquei um número que poucos conhecem. Era a linha direta para o General Costa.
“Comandante,” o Costa atendeu logo. “Situação?”
“Missão cumprida. Alvo neutralizado,” disse. “Mas preciso de um favor, senhor. Um grande. E preciso do pássaro.”
“O pássaro? Queres dizer o transporte?”
“Não, senhor. Preciso do EH-101 Merlin. E preciso de autorização para um desvio.”
“Para onde, soldado?”
“Para uma escola primária em Lisboa. Tenho uma apresentação para assistir.”
Houve um longo silêncio do outro lado. Depois, uma risada. “Isto é por causa do miúdo?”
“Sim, senhor.”
“Tens luz verde. Faz uma entrada, filho. Faz-nos orgulhar.”
**Capítulo 3: O Voo Para Casa**
O som do EH-101 Merlin é inconfundível. Um ritmo pesado que normalmente significa que estamos a entrar no inferno ou a sair dele. Mas hoje, o som era diferente. Soava a redenção.
Sentei-me no compartimento, as pernas penduradas na borda. O vento batia-me no rosto, ardendo nos olhos, mas não pestanejei. Estava ainda com o equipamento—colete táctico empoeirado, botasO helicóptero pousou suavemente no campo de futebol, e quando as portas se abriram, o Tomás correu até mim, sorrindo, enquanto toda a escola assistia em silêncio, finalmente acreditando na verdade que ele sempre soube.





