**Diário Pessoal**
Pouco antes do meio-dia, a luz do sol entrava pelos claraboias de vidro do **Centro de Reabilitação Memorial Afonso Henriques**, em **Sintra**. O pátio privativo parecia mais um jardim de luxo do que uma instituição médica. Toalhas de linho ondulavam suavemente no calor. Jarras de água com gás importada brilhavam ao lado de copos intocados. No ar, notas de sândalo e rosas, um perfume cuidadosamente escolhido para disfarçar a dor e o desgaste.
No centro do pátio, estava **Rafael Almeida**, quarenta anos, sentado numa cadeira de rodas que valia mais do que muitas casas. Governava como um rei confinado ao aço, a postura rígida de raiva contida. Dois anos antes, ele era o rosto público da **Almeida Construções**, um conglomerado implacável conhecido por devorar concorrentes. Agora, as pernas imóveis eram um lembrete constante do acidente de escalada que partiu sua coluna—e seu ego—num penhasco traiçoeiro.
Ao seu redor, quatro companheiros abastados: **Guilherme Moreira**, **Marcos Duarte**, **Rui Carvalho** e **Silvano Borges**. O riso deles ecoava pelo espaço, despreocupado e afiado, como pedras atiradas ao mar sem pensar no que afundaria.
Guilherme ergueu a taça em falso brinde. *“Ao Rafael, o imperador invencível,”* disse, o riso borbulhante como champanhe. *“Até a gravidade falhou em te derrubar.”*
Os lábios de Rafael curvaram-se num sorriso contido. Dominava a arte de usar o charme como escudo. *“Prefiro ‘imperador temporariamente incomodado’,”* respondeu, ajustando-se na cadeira com um leve zumbido mecânico.
Na ponta do pátio, uma menina de dez anos enxugava a chuva de um banco com um pano gasto que absorvia mais sujeira que água. As calças jeans ficavam acima dos tornozelos. Os tênis, remendados com fita adesiva. Cabelos escuros e desgrenhados caíam pelas costas. Chamava-se **Beatriz Fernandes**. Perto dela, a mãe, **Teresa Fernandes**, empurrava um carrinho de limpeza, esfregando os azulejos até as mãos racharem e sangrarem.
Guilherme olhou para a menina com curiosidade. *“Rafael,”* acenou na direção dela. *“É essa a prodígio que a equipe mencionou? A que parece saber todos os nossos segredos?”*
Marcos riu. *“Provavelmente contando os zeros nas nossas contas. Coitada.”*
Teresa baixou os olhos. *“Ela só está me ajudando. Por favor, ignorem-na.”*
Rafael estudou Beatriz, reparando na clareza perturbadora do seu olhar. Ela observava o mundo como se montasse um quebra-cabeça invisível aos outros. A voz dele ergueu-se, calma mas firme.
*“Beatriz. Vem cá.”*
Teresa ficou tensa. *“Sr. Almeida, por favor. Ela não quer problemas.”*
*“Não perguntei se ela queria problemas,”* Rafael respondeu com frieza. *“Pedi que viesse.”*
Beatriz avançou, as mãos trêmulas em volta do pano. Quando parou diante dele, Rafael tirou um talão do paletó, arrancou um cheque, escreveu e ergueu-o entre os dedos.
*“Cem mil euros,”* disse. *“São seus se me provar errado.”*
Rui arqueou a sobrancelha. *“E o que ela supostamente fará? Ensinar a cadeira a voar?”*
Rafael inclinou-se levemente. O pátio ficou em silêncio.
*“Faça-me andar,”* ordenou.
O choque percorreu o grupo. Guilherme explodiu em gargalhadas, Marcos seguiu com um escárnio, e até Silvano deixou escapar um sorriso.
Teresa suspirou. *“Por favor, senhor. Ela não pode fazer isso. Não somos charlatães. Limpamos. Não fazemos milagres.”*
Beatriz falou antes que alguém a impedisse. *“Milagres são só coisas que a ciência ainda não alcançou.”*
O silêncio caiu instantaneamente. Rafael fixou o olhar nela. *“Entende mesmo o que está dizendo?”*
*“Sim,”* respondeu, serena. *“Entendo tudo o que o senhor tem medo de sentir. Quer melhorar, mas querer não é o mesmo que tentar.”*
Guilherme bufou. *“Inacreditável. Uma filósofa de tênis furados.”*
Rafael acenou para ele calar. *“Diga-me, Beatriz. Por que deveria acreditar que você—uma criança—pode consertar o que os melhores cirurgiões do país não conseguiram?”*
Beatriz olhou para as pernas dele. *“Porque o senhor acredita que eles podem. E acredita que o dinheiro pode. Mas não acredita que merece sarar. Por isso, nada funciona.”*
Algo dentro de Rafael estremeceu. A mandíbula cerrou-se. A mão apertou o cheque.
*“Quem lhe disse isso?”* perguntou, voz baixa.
Beatriz ergueu o queixo. *“Ninguém precisou dizer. Eu sinto. A dor deixa ecos. A culpa deixa marcas mais profundas que cirurgias.”*
Teresa agarrou o ombro da filha. *“Chega. Vamos embora. Não vou deixar que seja castigada por falar.”*
Pela primeira vez, o tom de Rafael suavizou. *“Espere.”*
Os olhos dele passaram por Beatriz, indo até as montanhas no horizonte. A memória invadiu—o estalo do osso, o uivo do vento. O arnês que falhou. **João Pinho** escorregando da corda. Caindo. Morrendo. Rafael pagara generosamente à viúva, mas nenhum dinheiro apagava a imagem gravada na mente.
Engoliu em seco. *“Se estiver mentindo, as consequências serão severas. Se não estiver, minha vida inteira mudará.”*
Beatriz assentiu uma vez. *“Então já fez a escolha.”*
No amanhecer do dia seguinte, numa sala de terapia estéril, os monitores acenderam-se com bipes rítmicos. A Dra. **Helena Sousa**, a neurologista mais cética do centro, ajustou os óculos.
*“Isso não é autorizado,”* alertou. *“Se algo der errado, minha licRafael estendeu a mão, tremendo, e pela primeira vez em dois anos, deu um passo sem ajuda, enquanto uma lágrima silenciosa escorria pela face de Teresa, e no coração de todos, uma nova esperança nascia.





