Todos Riram Quando Disse que Minha Mãe Era das Forças Especiais — Até o Momento em que a Verdade Foi Revelada6 min de lectura

PARTE 1: A HUMILHAÇÃO

Tudo começou numa terça-feira. As manhãs de terça na Escola Básica do Vale do Sado sempre cheiravam a cera de chão industrial, pizza requentada da cantina e desespero. Eu estava sentada no fundo da sala da professora Margarida, tentando parecer invisível, quase a confundir-me com o laminado bege da carteira.

O trabalho era simples, ou pelo menos devia ser: “Narrativas de Carreira”. Tínhamos de apresentar um discurso de três minutos sobre a profissão dos nossos pais e trazer um “objeto representativo”. Era o tipo de tarefa que só servia para destacar as diferenças sociais na nossa subúrbio, mas os professores jamais admitiriam isso.

“O meu pai é médico-chefe no Hospital de São José”, anunciou o João Santos, com o peito inchado de orgulho. Segurava um estetoscópio como se fosse um ceptro real. “Ele salva vidas todos os dias.”

“A minha mãe tem uma agência imobiliária”, disse a Carolina Ramos a seguir, lançando o cabelo para trás. “Ela vende as casas mais caras do distrito.”

E assim continuou. Médicos, advogados, engenheiros, gestores de fundos de investimento. Um desfile de salários a cinco dígitos e vidas estáveis. Até que chegou a minha vez.

“Inês? És a próxima”, disse a professora Margarida, espreitando por cima dos óculos.

Levantei-me com as pernas a tremer. Caminhei até à frente da sala, apertando uma velha moeda de desafio com o símbolo de um tridente. Não tinha PowerPoint. Não tinha um discurso ensaiado.

“A minha mãe… a minha mãe está na Marinha”, murmurei.

“Fala mais alto, Inês”, pediu a professora Margarida, com um sorriso encorajador.

Respirei fundo, tentando lembrar-me do aço que via nos olhos da minha mãe quando ela achava que eu não reparava. “A minha mãe é uma operacional das Forças Especiais”, disse, a voz trémula mas firme. “Ela trabalha em operações secretas.”

A sala silenciou por um segundo. Aquele silêncio pesado que antecede o caos. Depois, a explosão aconteceu.

“Ah, claro, acredito!” gritou o João do fundo da sala, recostando-se na cadeira com um sorriso trocista. “Não há mulheres nas Forças Especiais! Tens a certeza que ela não vende sardinhas no mercado?”

A sala explodiu em gargalhos. Não eram risos leves—eram cortantes, cruéis, a perfurarem-me como facas. Até a professora Margarida riu com nervosismo, como se eu estivesse a inventar uma fantasia para encobrir a ausência de um pai.

“Que… imaginação fértil, Inês”, disse a professora, acenando para eu me sentar. “Mas vamos tentar manter-nos no mundo real, sim?”

“Não estou a mentir”, sussurrei, mas ninguém me ouviu por causa do riso.

“Ela também luta contra terroristas no Call of Duty?” gozou outro aluno.

Sentei-me, marcada como mentirosa. O rosto ardia como se estivesse em chamas. Não chorei—a minha mãe ensinou-me melhor do que isso. “Controla a respiração, Inês. O pânico é o inimigo”, dizia ela. Mas a vergonha doía mais do que qualquer ferida. Apertei a moeda até sentir os bordos a cravarem-se na palma da mão.

Eles não sabiam das noites intermináveis. Não sabiam das vezes que ela chegava em casa com ligaduras que tentava esconder. Não sabiam que, enquanto os pais deles redigiam contratos ou mostravam apartamentos, a minha mãe estava em lugares que não aparecem nos mapas, a fazer coisas que dariam aos pais deles pesadelos.

Mas eu não podia dizer-lhes nada. Tive de engolir tudo e ficar ali sentada.

PARTE 2: A INTERVENÇÃO

Na manhã seguinte, o ambiente na escola estava pesado. O céu cinzento lá fora combinava com o meu estado de espírito. Caminhei pelos corredores de cabeça baixa, evitando olhares. Ouvia os sussurros. “Lá vai a contadora de histórias.” “Pergunta-lhe se a mãe também é super-heroína.”

Estava na aula de História, a olhar pela janela para o estacionamento molhado, quando o intercomunicante tocou. Mas não eram os anúncios habituais. Foi um ruído agudo, estático, que fez toda a gente sobressaltar-se.

“Alerta vermelho. Confinamento. Isto não é um exercício. Repito, alerta vermelho. Professores, fechem as salas.”

A voz da diretora tremia.

As gargalhadas pararam instantaneamente. O sorriso desapareceu da cara do João. Num instante, a sala transformou-se de um espaço entediado numa cela de terror. A professora Margarida deixou cair o marcador.

“Tudo bem, todos para o canto. Agora! Sem barulho!”, sibilou, trancando a porta e apagando as luzes.

Amontoámo-nos atrás da secretária, um emaranhado de membros trémulos e respirações ofegantes. Algumas raparigas choravam. O João hiperventilava, agarrado aos joelhos.

Senti um nó gelado no estômago, mas, estranhamente, a minha mente ficou clara. Avalia. Adapta-te. A voz da minha mãe ecoou. Olhei à volta. A porta era de madeira, frágil. As janelas davam para o rés-do-chão. Estávamos vulneráveis.

Dez minutos passaram. Pareceram dez anos.

Foi então que ouvimos.

Começou como um ruído distante, depois transformou-se num estrondo ritmado. Botas pesadas. Muitas. A correrem em uníssono pelo corredor. Boom-boom-boom-boom.

Gritos começaram à distância, mas foram silenciados abruptamente.

“Estão a chegar”, murmurou a Carolina, com lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.

Os passos pararam mesmo à nossa porta.

Segurámos a respiração. O puxador não mexeu. Não houve pancada.

BAM!

A porta não se abriu—foi arrancada. Voou para dentro, batendo no quadro branco com um estrondo surdo.

Seis figuras invadiram a sala. Eram aterradoras. Equipadas com fatos tácticos—capacetes negros, viseiras de visão noturna, coletes à prova de bala, armas pesadas com silenciadores. Os lasers varriam a escuridão como víboras vermelhas.

“MÃOS! MOSTREM AS MÃOS!”, berrou uma voz atrás de uma máscara. Era distorcida, robótica, e absolutamente autoritária.

Gritámos. Não deu para evitar. Era o fim.

A equipa movia-se como um só corpo, revistando os cantos, protegendo o perímetro. Pareciam uma máquina. Um deles—o líder—avançou para o nosso grupo. O laser da arma baixou, não apontando a nós, mas verificando se a área estava segura.

A figura parou mesmo à minha frente. Os outros operacionais formaram um semicírculo, protegendo a saída.

O líder baixou a arma. Respirava com força, o som amplificado pelo rádio táctico. Ele—ou ela—puxou a correia do capacete e tirou-o.

Cabelos escuros e compridos caíram, molhados de suor.

Era ela.

O rosto estava pintado de camuflagem, os olhos eram ferozes, a varrerem o grupo de crianças assustadas até se fixarem em mim.

“Mãe?”, saquei, a voz um fio.

O silêncio na sala tornou-se ainda mais pesado do que o confinamento. O João estava de boca aberta como se tivesse visto um fantasma. A professA Carolina olhou para mim, depois para a minha mãe, e, num tom que nunca antes tinha usado comigo, perguntou: “Inês, a tua mãe ensina karatê?”.

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