Há muitos anos, numa pequena vila chamada Ribeira da Paz, no coração de Portugal, orgulhavam-se de duas coisas: a vista serena da Serra da Estrela, coberta de neve no inverno, e a retidão moral dos seus habitantes. O letreiro da vila, pintado com letras cuidadosas, dizia: “Ribeira da Paz: Um Bom Lugar para Criar uma Família”. Aos domingos, a torre branca da Igreja Matriz, liderada pelo afável Padre António Costa, era o centro de tudo. Durante a semana, o Presidente da Câmara, Eduardo Teixeira, reinava no Café da Paz, com a sua chávena de café sempre na mão.
Era uma vila construída sobre aparências. As pessoas cumprimentavam-se, contribuíam para o bazar anual da igreja e murmuravam em tons preocupados sobre os “menos afortunados”—termo educado para Joana e Leonor, que viviam no Bairro das Flores, na periferia da vila.
Joana era a tragédia local, uma mulher consumida pelo vício, varrida pela epidemia de opiáceos que assolava o país como um fogo descontrolado. Leonor, de nove anos, era a consequência viva dessa tragédia.
Leonor sofria de uma displasia congénita da anca grave e nunca tratada. O que poderia ter sido corrigido com uma simples órtese na infância tornara-se, após anos de negligência, uma deformidade debilitante. A sua perna esquerda balançava descontroladamente, e a articulação do quadril direito rangia osso contra osso. Andava com um passo desequilibrado e doloroso, um sacrifício humilhante a cada movimento.
Os “bons cristãos” de Ribeira da Paz viam-na. Viam-na mancar ao sair do velho autocarro escolar. Viam-na esforçar-se para acompanhar as outras crianças, que já aprenderam a excluí-la dos jogos.
Dona Carla, dona do Mercearia da Carla, observava Leonor a coxear pelo corredor, as mãozinhas apertando alguns vales de alimentação, e suspirava. “Que pena”, comentava ao próximo cliente. “Aquela pobre menina. Tal como a mãe.”
O Padre António visitara o barraco uma única vez. Deixara uma Bíblia e um folheto de um centro de recuperação em cima da mesa manchada de Joana, evitando pisar o lixo espalhado pelo chão. Apertara a cabeça de Leonor, desviando o olhar do ângulo doloroso das suas pernas, e dissera: “Estamos todos a rezar por ti, minha filha.”
Mas as orações não aliviavam a dor no quadril. A pena não impedia a agonia constante. A vila decidira ignorá-la—uma história triste para comentar entre cafés, mas não um problema a ser resolvido. Era “uma miúda do bairro”, e em Ribeira da Paz, alguns problemas eram considerados além da salvação.
Numa quarta-feira gélida de outubro, com o vento a trazer o primeiro sopro do inverno, Leonor estava em missão. A mãe estava “doente”—o cinzento tremer e gemer que a deixava ou a chorar ou a gritar. Mas estavam sem refrigerante, e Joana gritara até Leonor encontrar quatro euros amassados no fundo de uma bolsa.
Do Bairro das Flores até ao posto de gasolina eram quilómetros de sofrimento. Cada passo lançava uma facada de dor do quadril ao joelho. Caminhava pelo alcatrão, a cabeça baixa, o casaco fino até ao nariz. Parecia um passarinho ferido, arrastando uma asa partida.
Entrou na loja, o sino da porta tilintando. O empregado, um adolescente, mal ergueu os olhos do telemóvel. Leonor pegou numa lata de sumo do refrigerador. As mãos, dormentes de frio, falharam. A lata escorregou-lhe dos dedos, caiu no chão e rolou.
Leonor ficou a olhar, os olhos a arder de lágrimas frustradas. Era só uma lata, mas naquele momento, era um obstáculo intransponível. Agachar-se significava mover o peso, o que significava fogo no quadril. Tentou, mas um estalo seco na articulação fez-lhe gritar de dor.
Era apenas uma criança, a chorar no meio de um posto de gasolina, incapaz de apanhar uma lata de sumo.
O sino da porta tilintou novamente, desta vez deixando entrar um ar gélido e o cheiro a couro, gasolina e poeira da estrada.
O empregado ergueu os olhos, surpreendido.
Eram homens grandes. Os coletes de couro—”cuts”—tinham um remendo: uma caveira com um capacete, cruzada por uma espingarda e uma chave inglesa, e as palavras “Os Filhos Esquecidos” arqueadas no topo. Eram um clube de motociclistas, maioritariamente veteranos de guerras que iam do Ultramar ao Afeganistão. Pareciam duros, imponentes, e completamente deslocados na pacata Ribeira da Paz.
O líder, um homem com o peito largo como um armário e uma barba grisalha em duas tranças, avançou. Chamava-se José “Lobo” Almeida. Os seus olhos, afiados, nada perdiam. Vira o empregado ficar tenso, o modo como o GNR os vigiava sempre que passavam. Mas viu também a figura pequena e encurvada no chão.
Ignorou o empregado e aproximou-se de Leonor. Ela recuou, assustada com o seu tamanho e a caveira no colete. Aprendera a temer homens assim.
Lobo agachou-se, o couro a ranger. Movia-se devagar, como se se aproximasse de um animal assustado. A sua voz, quando falou, não foi o rugido que ela esperava, mas um tom baixo e grave, como pedras a rolar sobre veludo.
“Estás bem, passarinho?” perguntou.
Leonor abanou a cabeça, as lágrimas a sulcarem o pó no rosto. Apontou para a lata, o corpo a tremer.
Lobo apanhou-a. Olhou para ela, depois para o modo como se segurava—o corpo contorcido, a perna esquerda num ângulo estranho.
“O que se passa, pequenina?” perguntou, a voz ainda mais suave. “Estás magoada?”
Leonor finalmente olhou para ele. Viu as rugas em volta dos olhos—de cansaço, não de crueldade. Sussurrou as palavras que se tinham tornado a sua existência inteira, as que a vila escolhera ignorar.
“Não consigo fechar as pernas”, murmurou, a voz a quebrar. “Dói-me. Dói-me sempre.”
Os olhos de Lobo, que tinham visto guerra em selvas e desertos, endureceram. O sangue fugiu-lhe do rosto, substituído por uma raiva fria que nascia no peito.
Um dos seus homens, um tipo magro com “Doutor” costurado no colete, ajoelhou-se. Fora médico da marinha. Passou a mão pela perna de Leonor, o toque profissional.
“Chefe”, disse, o tom apertado. “Isto é grave. Displasia da anca, não tratada. Anos sem tratamento. A articulação está destruída. Ela está em agonia constante. Isto… isto é criminoso.”
Lobo olhou da menina chorosa para a rua principal, para o letreiro do Café da Paz, onde via as figuras a rir, a beber café.
Olhou de novo para Leonor. “Como te chamas, passarinho?”
“Leonor.”
“Ora bem, Leonor”, disse Lobo, a voz espessa. Levantou-a como se pesasse nada, os braços enormes uma fortaleza à volta dela. Leonor ficou tão chocada que esqueceu de chorar. Apoiou-se no seu colete de couro, a cabeça encostada no ombro dele.
Apanhou a lata e atirou uma nota de vinte euros para o balcão. “Isto é para a miúdaE no dia em que Leonor finalmente correu no parque, sem dor, as pessoas de Ribeira da Paz aprenderam, pela primeira vez, o verdadeiro significado do nome da sua vila.





