Uma Humilde Criada Acusada de Roubar uma Joia Priceless6 min de lectura

**Diário de Clara**

A maioria dos dias da minha vida, tive pó nos pulmões e cheiro de limão nas mãos, mas nunca me incomodou.

A Quinta Hamilton ficava no alto de uma colina em Sintra, a quarenta minutos de Lisboa, um mundo à parte. Cercas altas, portões de ferro, colunas brancas. O tipo de lugar que as pessoas admiravam ao passar de carro.

Clara conhecia cada pedra daquele caminho. Onze anos indo e vindo por ali. Sabia cada rangido do chão, cada mancha nas portas de vidro, cada nódoa difícil de sair no mármore branco da entrada. Sabia quais lâmpadas piscavam e quais torneiras pingavam. Sabia que, se não mexesse na maçaneta da casa de banho dos convidados, a água continuaria a correr a noite toda.

Mas, acima de tudo, conhecia as pessoas.

Adam Hamilton, quarenta e três anos, investidor em tecnologia, com um sorriso que valia milhões—quando se lembrava de usá-lo. Viúvo há três anos, ainda usava a aliança por hábito.

O filho, Tiago, sete anos, mais dinossauro do que criança na maioria dos dias—cotovelos afiados, perguntas sem fim e abraços repentinos.

E Margarida.

A mãe de Adam.

A matriarca.

Rainha da casa, embora tecnicamente não morasse lá—tinha um apartamento de luxo na cidade—, mas aparecia com tanta frequência que Clara às vezes esquecia qual era realmente a morada dela.

Margarida Hamilton era o tipo de mulher que notava quando alguém movia um vaso três centímetros para a esquerda.

Usava pérolas na cozinha e bebia o café como se ele a tivesse ofendido.

Clara respeitava-a.

Mas também tinha medo dela.

Foi numa terça-feira de manhã que tudo mudou.

Clara chegou às 7h30, como sempre. O ar de setembro estava fresco o suficiente para que ela se enrolasse ainda mais no seu cardigã enquanto caminhava da paragem do autocarro até à entrada da quinta.

Lá dentro, a mansão estava silenciosa. A porta da equipa dava para o hall e depois para a cozinha—um espaço enorme, reluzente, com bancadas de mármore e eletrodomésticos de aço inoxidável que Clara limpava quatro vezes ao dia.

Pendurou o casaco no pequeno armário da equipa, calçou os sapatos de interior, prendeu o cabelo e verificou a lista escrita à mão no balcão.

A lista de Margarida.

Todos os dias, uma nova.

TERÇA-FEIRA:

– Prata polida na sala de jantar
– Trocar a roupa de cama do quarto de hóspedes (suite azul)
– Limpeza profunda da casa de banho do corredor superior
– Pequeno-almoço às 8h — aveia, fruta, café (sem açúcar)

Clara sorriu.

Gostava de listas.

Tornavam as coisas mais fáceis de gerir.

Pôs a cafeteira no lume (forte, preto, duas chávenas sempre prontas para Margarida às 8h05) e começou a preparar o pequeno-almoço.

Às 7h50, ouviu passos nas escadas. A voz de Tiago ecoou lá em baixo.

“Claraaaa, há panquecas?”

“Não hoje,” respondeu ela, abrindo o tacho de aveia. “Aveia com fruta. Muito saudável.”

Ele apareceu na porta, de pijama de dinossauro, o cabelo despenteado e esfregando os olhos.

“Coisas saudáveis são chatas,” queixou-se, subindo para um banco. “Pelo menos tem amoras?”

“Tem sim,” disse ela, pondo-lhe uma taça à frente. “Se as comeres, ficas forte como um tiranossauro rex.”

Ele franziu os olhos. “O T-Rex não comia fruta.”

“Então forte como um… estegossauro,” corrigiu.

“Esses comiam plantas,” admitiu, pegando na colher. “Bom. Gosto do estegossauro.”

Ela serviu-lhe sumo de laranja e colocou uma chávena de café perto do balcão, exatamente onde Margarida gostava.

Na hora certa, ouviu-se o clique de saltos no corredor.

“Bom dia,” chamou Clara.

Margarida entrou na cozinha, de blusa cor de creme e calças de fato, maquilhagem impecável e o cabelo apanhado num coque baixo. Deu uma olhada rápida ao balcão, pegou no café sem olhar para Clara e deu um gole.

“Está demasiado quente,” disse, pousando-o de novo.

“Desculpe, Dona Margarida,” disse Clara rapidamente. “Da próxima vez deixo arrefecer mais um pouco.”

Margarida resmungou algo ininteligível.

Os olhos dela percorreram a cozinha, fazendo um inventário rápido, e pousaram por um momento no neto.

“Estás a derramar aveia,” disse.

Tiago congelou a meio da colherada e olhou para a camisa.

Não estava.

“Avó,” disse com paciência. “Não há aveia.”

“Bem, vai haver,” respondeu ela. “Não te encolhas assim.”

Bebeu outro gole de café e virou-se para a porta.

“O Adam está a trabalhar de casa hoje,” disse a Clara por cima do ombro. “Vêm visitas esta tarde. Investidores.” O tom dela sugeria que não estava impressionada. “A casa tem de estar perfeita. Como sempre.”

“Sim, senhora,” disse Clara.

Só já perto do meio da manhã é que Clara reparou que a porta do quarto das joias estava aberta.

A maioria das pessoas nem sabia que existia um quarto daquele tipo na casa dos Hamilton. Não fazia parte do tour oficial que Margarida dava aos convidados. Estava escondido atrás do escritório no andar de cima, um espaço pequeno com um armário climatizado e um cofre embutido na parede.

As relíquias dos Hamilton viviam ali.

Dinheiro antigo. Diamantes antigos. Ouro antigo.

Clara estava lá apenas para limpar o pó.

Hoje estava na sua lista: só uma camada fina, nada de importante.

Quando passou pelo escritório a caminho da lavandaria, viu a porta entreaberta.

Estranho, pensou.

Margarida mantinha-na sempre fechada.

Clara hesitou e depois abriu-a um pouco mais.

O estojo das joias estava fechado, o cofre escondido atrás do painel, tudo parecia estar como devia. Mesmo assim, os pêlos na sua nuca arrepiaram-se.

Entrou, passou um pano macio cuidadosamente pelas prateleiras de vidro, com cuidado para não tocar em nada, e depois saiu, fechando a porta atrás de si.

Na altura, não viu a joia que faltava.

Só pelas duas da tarde é que os gritos começaram.

Clara estava no corredor de cima, a aspirar, quando ouviu a voz de Margarida.

Alta. Afiada.

“Impossível! Estava aqui! Aqui mesmo!”

Depois Adam, mais calmo, tentando acalmá-la. “Mãe, consegues…?”

“Não me digas para me acalmar,” cortou Margarida. “O teu pai deu-mo. É a única coisa que me resta.”

Clara desligou o aspirador.

Ouviu passos a aproximarem-se do quarto das joias.

Recuou para a parede quando Margarida quase esbarrou nela.

“Clara,” rosnou Margarida. “Tocaste no estojo das joias hoje?”

Clara engoliu em seco.

“Limpei as prateleiras, sim,” disse. “Como faço todas as terças. Não abri nada. Porquê? Falta alguma coisa…?”

“NãoEla não terminou a frase—Margarida já lhe voltara as costas, os olhos ardendo de raiva, enquanto Adam, com a gravata desapertada e o rosto marcado pela preocupação, olhava para Clara como se já não soubesse em quem confiar, e naquele momento, Clara percebeu que nada naquela casa voltaria a ser como antes.

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