Você está demitida! Saia agora, incompetente!” – gritou a sogra com ódio, expulsando a nora do escritório.

— Ai, caramba, quase me borrei de rir naquela reunião! — Marina atirou os sapatos para o canto e jogou-se no sofá, sem sequer tirar o blazer. — Imagina só? Acusarem-te de desfalque na frente de todo o departamento! E tu, que és uma contabilista experiente, auditada pela “Grande Consultoria”!

Mas falava para o vazio. Para o armário da cozinha, para o gato Malaquias e para a garrafa de espumante que estava a abrir com os cotovelos. Porque as pessoas cansam-se, e os armários guardam segredos.

Tudo começou, como sempre, numa segunda-feira.

— Marina, entra aqui — disse Dona Ana sem entoação pelo telefone. Assim só falam robôs ou sogras preparadas para declarar guerra.

O gabinete dela parecia um congelador, só que mais frio: dali podias sair sem autoestima e sem carreira.

Marina entrou. Acenou curta e profissionalmente. À mesa, a sogra. Pela janela, a vista de Lisboa e os estilhaços da sua confiança.

— Temos um problema… — começou Dona Ana, apertando os lábios. — Há uma lacuna séria nos relatórios do trimestre passado. Quase meio milhão de euros. E tudo assinado por ti.

Marina sentou-se. Não na cadeira, mas na beirada — como se fosse o limite de um abismo. Nem teve tempo de responder, apenas sorriu com um canto da boca — aquele sorriso amargo que até dá vergonha ver no espelho.

— Está a falar a sério, Dona Ana? — Marina tentou manter a calma. — Não sou nenhuma novata de cursos de formação. Respondo por cada número. Verifique o histórico de alterações.

— Já verificámos — cortou-lhe a voz. — Está tudo documentado. Assinaturas, cálculos. Ou foste descuidada… ou foi intencional?

— Isto é uma provocação? — a voz falhou-lhe. — Verifico cada documento três vezes antes de assinar! Quem é que…

— Chega, Marina. Estás despedida. Por justa causa.

— O Pedro sabe? — sussurrou.

— Claro. Ele concordou.

Naquele momento, sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Não esperava heroísmo do marido, mas que ficasse do lado da mãe? Depois de oito anos de casamento e duas hipotecas?

Levantou-se. Em silêncio. Apenas deixou cair antes de sair:

— Dona Ana, não precisa de uma nora. Precisa de um espelho, para se admirar e dizer: ‘Que inteligente, bem-sucedida e forte sou… e tão sozinha como uma árvore no campo.’

Ela não respondeu.

Marina saiu.

O que seguiu foi como um pesadelo: notificação pelo correio, bloqueio nas redes, silêncio absoluto do marido.

Ele simplesmente evaporou-se. Como um gato que desaparece da escada. Nem chamada, nem mensagem. Apenas uma transferência de quinhentos euros — “para comida”.

Obrigada, meu amor. Era mesmo isto que faltava ao meu jantar: um pouco de humilhação frita na frigideira da deceção.

Três dias depois, o telefone tocou. Número desconhecido. Voz conhecida:

— Marina, sou o Sr. António.

Quase deixou cair a chávena. O antigo sogro. O mesmo que anos antes deixara Dona Ana e foi para o Algarve construir casas. Literalmente, com as próprias mãos.

— Soube o que aconteceu — a voz era suave, mas firme. — Quero encontrar-me contigo. Conversar. Talvez oferecer-te trabalho.

Marina hesitou.

— Acredita em mim? — perguntou.

— Não é questão de acreditar — respondeu ele. — É questão de justiça. E, talvez, da tua oportunidade de fazer um movimento.

Encontraram-se na Avenida da Liberdade. Café acolhedor, casaco cinzento, olhar de aço temperado.

— Saí daquela família, mas não da minha cabeça — disse o Sr. António. — A Ana continua a mexer na lama, como antes. Mas tenho um plano. Preciso de uma contabilista de confiança. E tu serves.

Marina riu-se — amargo, quase histérico.

— Acabei de ser humilhada publicamente, despedida, e o meu marido, veja só, nem sequer se opôs.

— Por isso mesmo — sorriu ele. — É a hora certa para dar xeque-mate.

Naquela noite, Marina não dormiu. Revistou relatórios, lembrou-se de cada alteração. Tinha certeza: fora armadilhada. E sabia como.

De manhã, vasculhou as mensagens com colegas. E eis a descoberta: uma cópia de um documento interno que nunca deveria constar no relatório final. Mas estava lá. Com a sua assinatura. Que ela não colocara.

Foi uma fraude. E só uma mulher poderia arquitetá-la — com diploma em Economia e um coração de gelo.

— Sr. António — disse ela ao telefone. — Aceito. E tenho algo interessante.

— Ótimo — nem perguntou o quê. Apenas acrescentou: — Mas saiba: se avançarmos, não há volta atrás.

— Não quero voltar — respondeu baixinho. — Sigo em frente.

Na manhã seguinte, vestiu o blazer e dirigiu-se a um novo escritório. A empresa do Sr. António cheirava a ambição, café e canela.

Caminhava confiante. Porque, pela primeira vez em dias, não sentia raiva nem desespero — apenas a adrenalina de quem está na linha de partida. Como se alguém já contasse:

“Um… dois… vinga-te.”

— Queres dizer que ela simplesmente falsificou a tua assinatura? — O Sr. António rodava um pendrive como se fosse o pino de uma granada.

— Não — Marina fez uma pausa. — Ela copiou-a. Digitalizou, editou, inseriu num PDF. Há mil formas. Não sabe do que é capaz uma mulher que não aceita a nora?

— Vivi com ela vinte anos — ele riu-se, apertando os olhos. — Saí com menos cabelo e mais nervos. Mas aguentaste mais do que pensei. Cinco anos no reino dela é como uma sentença no Alcatraz.

— Seis e meio — corrigiu mentalmente, apertando as mãos. E com cada memória — dos jantares cheios de insinuações, dos olhares que cortavam mais que faca — crescia nela um desejo simples: não só vingar-se, mas fazê-lo com estilo.

O trabalho agora era diferente. A nova construtora do Sr. António tinha projetos ambiciosos, contactos de sonho. Nomeou-a vice de finanças, apesar do “despedida por justa causa” no currículo.

— Sabes — disse ele certa vez, sentando-se ao seu lado na sala vazia —, eu queria que o Pedro casasse com alguém inteligente. Só não pensei que a inteligência seria um problema.

— Quer que finja ser parva? — Ela sorriu torto. — Como a Sofia do antigo escritório. A única função dela era servir café e rir na hora certa.

— És demasiado independente — ele abanou a cabeça. — A Ana não gosta dessas. Ela quer pessoas submisso*Ela levantou o copo de vinho, olhou para o mar e sorriu, percebendo que a melhor vingança não era a queda dos outros, mas a própria liberdade.*

Leave a Comment