A câmera avança devagar pelo portão de ferro negro. O ronco do motor desaparece num estalo seco. Claque. Do outro lado, o silêncio parece vivo, denso, sufocante, como se engolisse o próprio ar. O jardim está impecável, sem uma única folha fora do lugar. E o sol de Lisboa reflete nas janelas como lâminas afiadas.
Todos diziam que na mansão Mont’Alvares o tempo tinha parado junto com as vozes. Nenhum riso infantil, nenhum papá, nenhum mamã. Apenas o eco dos próprios passos e, às vezes, o tique-taque distante de um relógio antigo que parecia marcar não as horas, mas a ausência delas. Naquela manhã abafada, Leonor chegou com uma mala pequena, o cabelo preso por um laço de fita verde e o olhar de quem guarda esperança no bolso.
Parou diante da porta imponente, sentiu o cheiro de cera de abelha e, por um instante, jurou ouvir alguém respirar do outro lado. Era apenas o vento deslizando pelas colunas de mármore. Quando o portão se fechou atrás dela, o som metálico ecoou como advertência. Aqui dentro, tudo obedece ao silêncio. Uma mulher magra com coque impecável abriu a porta. “É a nova cuidadora?”, perguntou sem sorrir. Leonor acenou. “Sim. Vim pelo anúncio.”
A governanta, Dona Silvana, mediu-a de cima a baixo como quem avalia mobília antiga. Depois apontou o corredor. “O senhor Duarte não tolera atrasos nem barulhos.” Leonor adentrou. O ar lá dentro era gelado, quase de sacristia. O chão de madeira polida refletia seus passos, e o som dos saltos parecia uma ofensa.
Nos corredores, quadros com molduras douradas exibiam retratos antigos – homens sisudos, mulheres que não sorriam. Um deles chamava atenção: uma jovem de olhos melancólicos segurando dois bebés. Na plaquinha: “Mariana Mont’Alvares, 1987-2018”. Leonor sentiu um calafrio. Aquela mulher tinha o mesmo olhar dos meninos que ainda não conhecia.
Duarte surgiu no topo da escadaria, fato escuro, mãos nos bolsos, olhar de granito. A voz saiu baixa e controlada. “A senhora cuidará dos meus filhos? Só isso?” “Sim, senhor”, respondeu Leonor, disfarçando o nervosismo. “Eles não emitem som algum. Os médicos foram claros.” Fez uma pausa breve, encarando-a. “Não tente o que as outras tentaram.”
“Cuide, alimente, mantenha a rotina.” Leonor quis dizer que às vezes o impossível precisa apenas de tempo, mas conteve-se. O olhar dele pedia silêncio. A governanta completou como quem recita um catecismo: “Nada de música, nada de histórias. Assustam-se facilmente.”
Leonor apenas assentiu. Ao subir para o andar das crianças, percebeu que o som de seus passos sumia conforme avançava, como se a casa os engolisse. No quarto dos meninos, cortinas pesadas deixavam passar um fio pálido de luz. Os brinquedos eram caros, coloridos, mas pareciam intocados, como novos. Dois gémeos estavam sentados no tapete, empilhando blocos de madeira.
Um deles, Rodrigo, olhou de relance e desviou o olhar rapidamente. O outro, Martim, mantinha a cabeça baixa, concentrado no vazio. Leonor ficou parada, sem saber se deveria cumprimentá-los. O coração batia forte em seu peito. Ela, que crescera ouvindo que nunca aprenderia a falar direito, agora precisava alcançar duas crianças presas no mesmo tipo de silêncio.
“Chamo-me Leonor”, disse suavemente, quase num sussurro. “Vim ficar com vocês.” Nenhum reagiu. Apenas trocaram um olhar rápido, cúmplice. Era como se conversassem numa língua invisível, feita de gestos e piscadelas. Leonor ajoelhou-se até ficar na altura deles. A textura do tapete era fria sob seus joelhos.
Observou os blocos, as pequenas torres que construíam e, sem pedir licença, pegou um bloco azul. “Posso brincar também?”, perguntou, erguendo o bloco sobre a cabeça como se fosse um chapéu. “Acho que virei uma torre viva.” Martim piscou duas vezes. Rodrigo conteve o riso. Não foi gargalhada, mas o canto da boca tremeu. Leonor percebeu – e naquele microgesto cabia um universo.
“Tudo bem”, murmurou. “Se não quiserem falar, eu falo pelos três.” No canto, umaNaquela noite, enquanto a lua banhava os telhados de Lisboa, Leonor sentou-se à janela e sorriu ao ouvir, pela primeira vez, os meninos sussurrarem “boa noite” em perfeita sintonia.





