Motociclistas Protegem Orfanato na Véspera de Natal Contra Despejo6 min de lectura

Era uma noite de Natal há muitos anos, e lembro como se fosse hoje. Duzentos motociclistas cercaram um orfanato quando o comissário tentou despejar vinte e três crianças na véspera de Natal. O que eles não sabiam era que eu era o juiz que havia assinado a ordem de despejo.

Chamo-me Juiz Afonso Mendes, e estive no tribunal durante vinte e dois anos. Tomei milhares de decisões, assinei inúmeras ordens, destruí famílias e salvei outras. Mas nada—absolutamente nada—me preparou para o que aconteceu naquela noite de dezembro.

Estava no meu carro, do outro lado da rua do Orfanato Santa Brigida, observando a polícia preparar-se para executar a ordem de despejo que eu assinara três dias antes. O banco tinha executado a hipoteca. O orfanato tinha noventa dias para sair. Eles prolongaram o prazo para seis meses com recursos, mas a lei era a lei.

Vinte e três crianças, dos quatro aos dezassete anos, estavam prestes a ser separadas e enviadas para instituições por todo o país. Na véspera de Natal.

Eu não devia estar lá. Juízes não costumam assistir às execuções das suas ordens. Mas alguma coisa me trouxe até àquela rua. Talvez culpa, talvez curiosidade mórbida. Ou talvez só precisasse de ver as consequências das minhas decisões, por uma vez.

Foi então que os ouvi. O ruído começou baixo, como um trovão ao longe. Depois cresceu. E cresceu. E cresceu.

Motociclos. Dezenas. Depois centenas.

Vinham de todos os lados, faróis cortando a escuridão de dezembro. Cercaram o orfanato num círculo enorme, motores acelerando, criando uma muralha de metal e couro entre os agentes da autoridade e a porta da frente.

O comissário João Cardoso, um homem que eu conhecia há quinze anos, estava parado com a ordem de despejo na mão, encarando o mar de motociclistas. Os seus seis agentes pareciam aterrorizados.

De repente, os motores calaram-se. Todos ao mesmo tempo. O silêncio foi ensurdecedor.

Um homem desceu da sua mota e avançou em direção ao comissário. Era imponente—talvez dois metros de altura, barba grisalha até ao peito, colete de couro coberto de insígnias militares.

“Boa noite, Comissário”, disse calmamente. “Chamo-me Tomás Rebelo, presidente dos Guardiões MC. Estamos aqui para falar sobre este despejo.”

“Não há nada para discutir”, respondeu Cardoso, embora a voz lhe tremesse. “Tenho uma ordem judicial assinada pelo Juiz Mendes. Estas crianças têm de sair imediatamente.”

Tomás acenou lentamente com a cabeça. “Compreendo que tenha um trabalho a fazer. Mas compreende o que está prestes a fazer? É vinte e quatro de dezembro. Amanhã é Natal. Vai traumatizar vinte e três crianças que já perderam as famílias?”

“A lei é a lei.”

“Às vezes a lei está errada.” Tomás olhou para os seus irmãos. “Não nos mexemos. Quer despejar estas crianças? Terá de passar por nós.”

Afundei-me no banco do carro. A situação estava a escalar rapidamente. Um pedido de reforços e aquilo viraria um motim.

Mas o Comissário Cardoso não chamou reforços. Ficou ali, com a ordem a tremer-lhe na mão, olhando para o orfanato por trás da muralha de motociclistas.

A Irmã Maria, a freira de setenta anos que dirigia o Orfanato Santa Brigida, saiu para o alpendre. “Por favor, pessoal. Nada de violência. As crianças estão a assistir pelas janelas.”

Olhei para cima. Vinte e três rostos pressionados contra o vidro. Olhos arregalados. Alguns a chorar. Os mais velhos segurando os mais novos.

“Irmã”, chamou Tomás. “Não estamos aqui para violência. Estamos aqui porque crianças não deviam ficar sem casa no Natal.”

“Senhor Rebelo”, disse Cardoso. “Respeito o que está a tentar fazer. Mas se não se dispersarem, vou ter de prender todos por obstrução.”

Tomás riu-se. Não de forma zombeteira, mas triste. “João—posso chamar-lhe João? Vai prender duzentos veteranos, três dias antes do Natal, por protegerem órfãos? Como é que isso vai parecer no telejornal?”

Foi então que notei as carrinhas da televisão a chegar. Três. Câmaras já a filmar.

O meu telefone tocou. O Presidente da Câmara. Deixei tocar.

Tocou novamente. O Presidente do banco. Ignorei.

À terceira vez, era a minha mulher. Atendi.

“Afonso, estás a ver as notícias? Há duzentos motociclistas a cercar o Orfanato Santa Brigida! Estão a proteger aqueles órfãos que vais despejar!”

“Eu não estou a despejar ninguém. O banco é que está. Eu só assinei a ordem.”

“Afonso Mendes, desce já aí e resolve isto.”

“Não há nada que possa fazer. A ordem já está assinada.”

“Então cancela-a!”

“Não é assim que a lei funciona, Luísa.”

Ela desligou-me. Trinta e dois anos de casamento, e nunca me desligara antes.

De volta ao orfanato, chegavam mais motas. A multidão crescia. Alguém montara colunas e tocava músicas natalícias. “Noite Feliz” ecoava no ar frio.

Um repórter aproximou-se de Tomás. “Senhor, porque está aqui esta noite?”

Tomás olhou diretamente para a câmara. “Porque alguém tem de defender estas crianças que não podem defender-se sozinhas. O banco que está a executar este orfanato foi salvo com dinheiro público em 2008. Eles tiveram uma segunda chance. Mas não querem dar uma a estas crianças?”

“E quanto à lei?”

“Às vezes a lei protege os poderosos em vez dos mais frágeis. Quando isso acontece, pessoas decentes têm de se levantar e dizer não. Não hoje. Não com crianças. Não no Natal.”

A multidão explodiu em aplausos. Mais motociclistas chegavam. Alguns trouxeram chocolate quente para os agentes, que não sabiam se deviam aceitar.

Depois aconteceu algo extraordinário.

Pessoas comuns começaram a aparecer. Famílias do bairro, donos de lojas, professores. Juntaram-se aos motociclistas. Em uma hora, cerca de quinhentas pessoas cercavam o Orfanato Santa Brigida.

O Comissário Cardoso estava ao telefone, a andar de um lado para o outro. Imagino com quem falava. O Presidente da Câmara. Talvez o ministro. Os superiores a dizer-lhe para resolver aquilo sem virar um desastre.

Às nove da noite, Cardoso aproximou-se novamente de Tomás. “Senhor Rebelo, eu tenho um trabalho a fazer.”

“E nós temos crianças para proteger.”

“O que quer de mim?”

“Dê-nos até à meia-noite. Três horas. Deixe-nos fazer umas chamadas. Tentar arranjar uma solução.”

Cardoso olhou para os seus agentes, para a multidão, para as câmaras. “Três horas. Depois disso, chamo a PSP.”

Tomás acenou e tirou o telefone. Em minutos, dezenas de motociclistas estavam a fazer chamadas. Ouvi fragmentos:

“Preciso de um advogado para um recurso de urgência…” “Alguém conhece alguém no banco para travar isto…” “Consiga-me o número pessoal do ministro…”

O meu telefone tocou outra vez. Desta vez era a Juíza-Conselheira Margarida Silva, minha superior.

“Afonso, que raio se passa aí?”

“Não estou aí. Estou em casa.” ANo final, aprendi que a justiça não se faz só com leis, mas com compaixão, e que por vezes os anjos vestem coletes de couro e chegam em motas barulhentas para lembrar-nos do que realmente importa.

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