A catedral brilhava com uma luz suave de velas, e o silêncio lá dentro era absoluto. Bernardo Mendes estava sentado na primeira fila, o rosto marcado pela dor, enquanto o coro terminava de cantar as últimas notas. Era a despedida de um pai para sua única filha. Um momento que nenhum pai quer viver. Aquele silêncio foi quebrado quando as pesadas portas se abriram de repente, e um rapaz magro, com roupas sujas de terra, tropeçou ao entrar.
Ele correu pelo corredor central, a voz quebrando enquanto gritava, cada palavra tremendo de urgência:
—Pare o funeral! A sua filha está viva!
Um murmúrio percorreu a multidão. Alguns convidados recuaram; outros olharam para ele com raiva, como se ele estivesse ali só para causar confusão. Bernardo apenas ficou parado, o ar preso no peito. O rapaz chegou até o caixão e caiu de joelhos, as mãos abertas sobre a madeira polida.
—Chamo-me Tiago Carvalhais —disse, ofegante—. Eu sei o que aconteceu à Mariana. Vi a verdade. Ela não se foi.
Os seguranças avançaram, mas Bernardo ergueu a mão devagar.
—Deixem-no falar.
Tiago engoliu em seco. A voz estabilizou o suficiente para continuar:
—Eu estava atrás da discoteca naquela noite. Vi um homem a arrastá-la para um beco. Ele deu-lhe uma injeção. Pensei que a estava a ajudar, até ver o corpo dela ficar mole. Ela estava viva, mas mal respirava. Ele deixou-a no chão porque achou que ninguém estava a ver.
Os murmúrios encheram a sala. Bernardo sentiu um frio a subir-lhe pelo peito.
Tiago prosseguiu:
—Tentei acordá-la. Gritei o nome dela. Pedi ajuda, mas ninguém vai ao meu bairro. A polícia só chegou horas depois e disse que ela estava morta. Eles estavam errados.
Bernardo deu um passo, e outro, até ficar bem à frente do rapaz.
—Porque esperou até hoje para dizer isto?
Tiago baixou o olhar.
—Ninguém ouve um miúdo sem casa. Tentei falar com os agentes, mas afastaram-me. Quando soube que o funeral era hoje, percebi que não podia deixar que a enterrassem se ela ainda respirava.
As palavras caíram sobre Bernardo como pedras. Durante semanas, ele sentira que algo não batia certo na causa da morte. Que a Mariana tinha sido levada antes da hora. Agora, esse fio estava a desfiar-se.
—Abram —ordenou Bernardo em voz baixa.
Levantou a tampa do caixão. A luz entrou e ele inclinou-se, esperando o silêncio, o frio terrível da morte. Em vez disso, sentiu calor sob os dedos. Calor onde não devia haver nenhum.
—Ela está morna —sussurrou.
Apertou os dedos contra o pescoço dela. Havia um pulso. Fraco, mas inegável.
—Chamem um médico. Agora.
Os convidados entraram em frenesi. Um médico que estava no funeral aproximou-se e confirmou por si mesmo. Os olhos abriram-se de espanto.
—Ela tem batimento cardíaco. Fraco, mas presente. Temos de levá-la para o hospital imediatamente.
Enquanto os paramédicos levantavam Mariana do caixão e a levavam às pressas, Bernardo virou-se para Tiago. O rapaz parecia pronto para ser arrastado pelos seguranças.
—Tu vens comigo —disse Bernardo.
Tiago ficou tenso.
—Eu não fiz nada de errado.
—Vieste porque te importas. Isso chega.
Seguiram a maca até à ambulância e depois ao hospital. Horas passaram. Bernardo andava de um lado para o outro no corredor. Tiago ficou em silêncio, as mãos apertadas uma na outra, como se não quisesse invadir a dor de um homem rico. Por fim, um médico de bata branca aproximou-se.
—Ela está estável agora —informou—. A sua filha foi induzida num coma por uma substância externa. Os sinais vitais foram mal interpretados. Este rapaz manteve-a viva ao falar.
Bernardo olhou para Tiago com incredulidade e gratidão.
—Conta-me mais sobre o homem que viste —pediu.
Tiago acenou.
—Usava um casaco escuro. Tinha uma cicatriz perto da sobrancelha. Empurrou-a para uma carrinha prateada. Eu lembro-me da matrícula. Faço isso para sobreviver.
Bernardo segurou a respiração.
—Qual era o número?
Tiago repetiu-o com clareza.
Bernardo sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões. Ele conhecia essa matrícula. Era de Rui Lopes. O seu sócio de negócios de toda a vida. O homem que insistira que o funeral fosse rápido para evitar a atenção dos media.
A traição apertou-lhe a visão.
—Ele fez isto para ficar com a minha parte —murmurou—. Queria destruir-me.
Na manhã seguinte, Bernardo sentou-se ao lado da cama de Mariana. O rosto dela estava calmo. Tiago esperava em silêncio perto da porta.
—Tiago —chamou Bernardo—. Vais ajudar-me a derrubá-lo?
Tiago acenou sem hesitar.
—Por ela. Sim.
Os investigadores chegaram em horas. Reviraram as filmagens de segurança da discoteca e encontraram a carrinha de Rui no beco. Mais provas surgiram nos registos financeiros. Rui tinha muito a ganhar com a queda de Bernardo. Com o testemunho de Tiago, os detetives confrontaram Rui e fizeram a detenção. Foi acusado de tentativa de homicídio e fraude.
Bernardo viu a notícia em silêncio. Tiago estava ao seu lado no sofá.
—Salvaste-a duas vezes —disse Bernardo suavemente—. Primeiro no beco. Depois no funeral.
—Só fiz o que qualquer um devia —respondeu Tiago.
—Nem todos se arriscariam por dizer a verdade.
Quando Mariana finalmente abriu os olhos, encontrou Bernardo ao seu lado. Ele pegou na mão dela, aliviado. Ela virou a cabeça e viu o rapaz perto da parede, como se não se sentisse no lugar certo.
—Pai… —sussurrou—. Quem é ele?
Bernardo sorriu com uma calidez que não sentia desde que ela era criança.
—É quem te manteve viva. Não estarias aqui sem ele.
Mariana estendeu a mão, fraca, para Tiago.
—Obrigada… —sussurrou—. Obrigada por não me deixares.
Tiago pestanejou rápido, a voz a falhar.
—Nunca poderia ter deixado.
Bernardo pôs a mão no ombro dele.
—Não vais voltar para a rua. De agora em diante, ficas connosco. Agora tens uma casa.
Tiago olhou para ele como se não acreditasse no que ouvira.
—Tem a certeza?
—Totalmente.
O rapaz acenou devagar. Os olhos brilharam, ainda marcados pela fome e pelas noites frias, mas agora com algo novo: a esperança de um lar. E Mariana sorriu-lhe, como se já soubesse. A sua vida tinha sido salva por um desconhecido que se recusou a calar. Agora, ele já não era um desconhecido. Era família.





