O meu diário, hoje.
A insónia tinha forma de roda.
O Luís Ventura passara dois anos a escutar, na escuridão do seu quarto em Cascais, o mesmo som: o ligeiro ranger da roda da cadeira quando a Leonor se mexia no corredor para ir à casa de banho ou quando a Mafalda a acomodava com cuidado para que as pernas não adormecessem.
Cada noite, ele ficava a olhar para o teto, contando os “se calhar” como quem conta ovelhas: se calhar tivéssemos ido mais cedo ao hospital… se calhar tivesse sido outra inflamação… se calhar o médico não tivesse dito “irreversível” com aquela calma de quem não vive nesta casa.
Naquela manhã de terça-feira, obrigou-se a funcionar. Fato impecável, olheiras disfarçadas com café, e a Leonor com o seu vestido amarelo —aquele de que mais gostava porque “parece o sol”— já pronta na cadeira, com o seu laço torto e o seu olhar apagado.
—Pronta para mais um médico, minha princesa? —perguntou o Luís, tentando que a voz soasse firme.
A Leonor olhou para ele sem drama, sem choro, como se aos cinco anos já tivesse aprendido a palavra “resignação” sem que ninguém lha tivesse ensinado.
—Se tu quiseres, papá.
Foi aquilo que o partiu por dentro.
Saíram para o carro e, justo quando o Luís ia a dar à chave, viu um rapaz parado em frente ao portão. Teria oito, talvez nove anos. Pele morena do Alentejo, cabelo apertado e olhos muito escuros. Usava uma t-shirt vermelha desbotada, que lhe ficava grande, e uns téns gastos com os atacadores amarrados em nós desajeitados.
O rapaz não pedia esmola. Não fazia a pantomina da tristeza.
Olhava para a cadeira de rodas como se estivesse a ver algo que lhe doía… e que ao mesmo tempo compreendia.
O Luís pensou em acelerar. Qualquer coisa para evitar mais “esperanças” que depois se transformam em ruínas. Mas o rapaz aproximou-se da janela com passo decidido.
—Senhor… dá-me um minutinho?
O Luís baixou o vidro, mais por curiosidade do que por paciência.
—O que queres? Tenho pressa.
O rapaz apontou para os pés da Leonor, que mal se viam por baixo do vestido.
—Eu posso lavar-lhe os pés… e ela vai voltar a andar.
O Luís soltou uma risada, forte, seca. Era absurdo. Era cruel, até, vir oferecer milagres onde já tinham deixado mais de cem mil euros e toda a fé do mundo.
—Olha, miúdo… não sei que esquema é este, mas—
—Não é esquema, senhor —interrompeu o rapaz, sem perder a calma—. A minha avó ensinou-me. Chama-se dona Remédios. Ela curava gente por ali por Santa Eulália. Eu sei fazer massagens com ervas. Se não resultar, o senhor manda-me embora. Mas se resultar… —e aí o rapaz olhou-o fixamente, sem pestanejar— a princesa vai correr.
O Luís sentiu, pela primeira vez em meses, uma pontada de algo que não era dor. Era aquela mistura perigosa de esperança e desespero, como quando se está prestes a apostar a única coisa que resta.
A Leonor, que estivera calada, inclinou-se para a frente.
—Papá… quem é ele?
O rapaz sorriu, e o sorriso mudou-lhe a cara. De repente já não parecia um miúdo de rua, mas um rapaz… rapaz.
—Olá, princesa. Chamo-me Tiago. Tiago Reis.
O Luís franziu a testa.
—E como sabes o nome dela?
Tiago encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
—Ora… toda a gente sabe. A senhora da mercearia contou que a filha do senhor Ventura já não anda. Disse que o senhor anda muito triste.
O peito do Luís apertou-se. Não queria que a sua dor se tivesse tornado mexerico, mas a dor, em Portugal, viaja mais depressa que um táxi.
A Leonor levantou a mão, como a pedir licença.
—Tu é que me podes ajudar?
Tiago ajoelhou-se para ficar à sua altura.
—Posso tentar. Mas tu também tens de querer. A minha avó dizia que as pernas são teimosas… mas o coração é mais teimoso.
O Luís engoliu em seco. Olhou para a filha. Olhou para o rapaz. E tomou uma decisão que não parecia a de um empresário, mas a de um pai.
—Está bem. Mas faz-se direito. Com a minha esposa presente. E se alguma coisa não me agradar, acaba-se.
Tiago hesitou um segundo, como se não acreditasse que o portão se ia abrir para ele.
—Eu sou pobre, senhor… não quero incomodar.
—Se realmente podes ajudar a minha filha —disse o Luís, e surpreendeu-se a si mesmo com a firmeza— nunca mais serás um incómodo nesta casa.
O portão abriu-se. O carro entrou devagar. Tiago olhava para os jardins como se fossem um museu: a relva perfeita, a piscina a brilhar, as buganvílias a trepar por uma parede branca. Um mundo alheio.
Na sala, a Mafalda recebeu-os com uma revista de decoração nas mãos e o olhar partido de quem já não acredita em nada.
—Luís… o que é isto?
—Chama-se Tiago. Diz que pode ajudar a Leonor.
A Mafalda soltou uma risada amarga, aquela risada de “já não me dói porque já me doeu tudo”.
—Vais acreditar num miúdo da rua?
Tiago avançou com educação, tirando dos seus calções um caderninho, de capa gasta.
—Senhora… entendo a sua desconfiança. Mas aqui tenho as receitas da minha avó. Se quiser ver.
A Mafalda abriu o caderno. Desenhos de plantas, nomes raros, instruções sobre pontos nos pés e nos tornozelos. Havia algo… demasiado pormenorizado para ser invenção.
—Onde está a tua avó?
A cara de Tiago entristeceu de repente.
—Foi-se há três meses. Adoeceu. Antes de ir, fez-me prometer que ia continuar a ajudar. Disse que se não fosse assim, o conhecimento morria comigo.
A Mafalda sentiu um puxão no coração. Um miúdo sozinho. Um miúdo com um caderno por herança.
—Vamos tentar —disse ela por fim, respirando fundo—. Mas com condições. Aqui, no quarto da Leonor. Eu presente. E ao primeiro sinal estranho, para-se tudo.
Tiago anuiu, aliviado.
—Sim, senhora.
Nesse mesmo dia, com uma bacia, água morna, alecrim e hortelã do jardim, começou.
Tiago preparou uma infusão forte e verteu-a na água. O quarto encheu-se de cheiro a campo. A Leonor fechou os olhos e suspirou quando os pés tocaram na água.
—Cheira bem… como quando chove.
Tiago massageou com cuidado, pressionando pontos exatos, sem pressa. A Mafalda segurou na mão da filha, a tremer. O Luís observava de pé, com os punhos cerrados, pronto a gritar “chega!” por qualquer coisa.
—Sentes alguma coisa, princesa? —perguntou o Tiago.
—Como… comichão por dentro.
A Mafalda ficou gelada. O Luís deu um passo.
—Tens a certeza?
A Leonor anuiu.
—Sim. Sente-se estranho… mas bonito.
Não era um milagre. Não era uma cena de filme. Era algo pequeno, quase invisível. Mas paraE naquele silêncio que se seguiu, apenas partido pelo som da água e pela respiração contida de todos, um dedo minúsculo do pé direito da Leonor moveu-se, sozinho, como uma pequena folha ao sabor de uma brisa que só ela sentia.





