A Jornada da Esperança: Uma Mãe, uma Promessa e a Busca pela Família PerdidaSob o céu pesado de guerra, cada passo seu pela paisagem devastada era alimentado pela imagem do sorriso da filha, uma promessa silenciosa que a mantinha viva.6 min de lectura

O vento cortante da serra uivava contra a janela gelada, transformando a paisagem num reino fantasmagórico de silêncio e frio. Na pequena sala, onde o hálito se condensava instantaneamente, uma mulher apertava contra si uma criança frágil.

– Mãe, não quero ficar longe de ti – uma voz baixa e trémula ecoou no ar gélido, como gelo a rachar. Os olhos da menina, grandes e azuis como as águas do Tejo, estavam cheios de lágrimas.

– Minha andorinha, meu solzinho, é preciso. É mesmo preciso. Em breve, muito em breve, estarei contigo – as palavras soavam como um feitiço, uma reza que ela repetia para convencer-se a si própria. Acariciou os cabelos louros e finos como seda da filha, e cada dedo seu entorpecia-se com a dor da separação.

– E como vou ficar sem ti, sozinha?

– Não estás sozinha, o Tomás estará contigo. Ele prometeu.

Junto à lareira, tentando aquecer as mãos doridas, estava o rapazinho do vizinho. Os seus caracóis ruivos pareciam guardar o resquício de algum verão há muito passado, e o seu olhar, maduro e sério para a idade, estava fixo na sua pequena amiga.

– Leonor, dei a minha palavra. Palavra de honra. Vou proteger-te – disse com firmeza, aproximando-se e pousando a mão no seu ombro.

À Helena, custava-lhe imenso, mas a razão, fria e lúcida, repetia-lhe uma única coisa: era o único fio de salvação, a única hipótese de arrancar as crianças do inferno que os cercava. A fome, o frio que trespassava a alma, os fogareiros quase apagados e os olhos vazios daqueles que já haviam desistido. O Tomás perdera a mãe no inverno passado – ela partira, tentando dar vida a uma nova pessoa, e ambos ficaram para sempre na casa gelada. A ajuda não chegou a tempo, perdeu-se nos ventos de neve da cidade condenada.

Implorara ao chefe da oficina que a deixasse partir com as crianças, mas a resposta era sempre seca e intransigente:
– Se todos os que têm filhos evacuarem, quem fica às máquinas? Pensas que é fácil para mim? Há uma ordem. Uma ordem de ferro. Desobedecer é como assinar a própria sentença.

– Peço-lhe… Salve pelo menos a minha filha! Eu encontro-a depois, quando este pesadelo acabar. Por mais que tenha medo, tenho de pensar na vida dela. E o Tomás… Está sozinho no mundo, é o rapaz do nosso prédio.

Foi assim que a Leonor e o Tomás se juntaram a uma coluna de outras pequenas sombras perdidas, conduzidas pelo gelo frágil da estrada da vida e da esperança, tão estreita sobre o abismo negro.

Os dois anos seguintes, a Helena existiu no limite, onde o corpo já não obedece, mas o espírito, impelido por um único objetivo, obriga a dar um passo após outro. O seu objetivo era o reencontro. Todas as manhãs acordava com o pensamento: “Hoje pode chegar notícia. Hoje pode acabar tudo.” Mas os dias arrastavam-se numa cadeia monótona e infinita. As pessoas, como sombras, caíam nas ruas e não se levantavam. A sua própria mãe tornara-se uma dessas sombras, apagando-se silenciosamente no quarto gelado. A eles, operários da fábrica de defesa, não era permitido sequer pensar em partir.

No início de fevereiro de 1944, quando o cerco foi finalmente quebrado, uma mulher magra, quase translúcida, dirigiu-se ao chefe da oficina. A sua voz era baixa, mas continha um aço temperado na forja do sofrimento.
– O cerco acabou. Preciso de encontrar a minha filha e o Tomás. Deixe-me ir.

– Sabes onde procurá-los, agora? O país é enorme.

– Soube que o comboio deles foi para a região de Viseu. Vou procurar nos orfanatos. Pode demorar.

– Como vais tu sozinha? A guerra ainda não terminou.

– Acha que, depois de tudo o que passei, posso ter medo de mais alguma coisa?

O Sr. Artur, chefe da oficina, um homem de rosto cansado e bigode grisalho, suspirou profundamente.
– Pensas que é simples, deixar-te ir? Queres que anule a tua isenção?

– E se me der como… desaparecida? Assim não haveria problemas. A Dona Celeste, por exemplo, desapareceu durante três meses e depois voltou. Um velho farmacêutico tratou dela, escondeu-a. Milhares de nós sobrevivemos como pudemos.

– Não, isso não posso fazer. Posso cobrir-te durante dois meses. Mas no início de abril, quero-te aqui de volta ao trabalho. Caso contrário… bem sabes.

– Obrigada – sussurrou a Helena e, arrastando as pernas enfraquecidas, saiu da oficina. A neve já não era uma inimiga, era apenas neve. A busca começava. Já tinha feito perguntas, sabia o nome da estação para onde os evacuados tinham chegado. Agora era preciso avançar.

Viseu recebeu-a com o lodo e o burburinho da estação, tão estranhos após o silêncio de túmulo do Porto. Estava no cais, perdida e confusa, quando uma idosa com um colete acolchoado e um lenço na cabeça se aproximou.

– Menina, estás à procura de alguém? – perguntou com suavidade, e nos seus olhos brilhava uma terna solidariedade.

– Sim – exalou a Helena. – De duas crianças. Um rapaz e uma rapariga. Trouxeram-nos para cá depois da evacuação. Preciso de um sítio para ficar, para fazer as averiguações.

– Vem comigo, vivo sozinha. Não quero dinheiro. Ajuda-me apenas com a casa, as minhas mãos já não são o que eram, doem-me.

– Com todo o gosto! Muito obrigada.

Foi assim que a Helena encontrou um refúgio temporário na casa da Dona Amélia, cuja bondade era uma ilha de salvação no mar de dificuldades do pós-guerra.

Na tarde desse mesmo dia, ao regressar dos correios, a Helena sentou-se à mesa da cozinha, onde já estava um bule de chá e cheirava a pão de centeio acabado de sair do forno.

– Então, conta, como correu? – perguntou a Dona Amélia, servindo o chá em chávenas de faiança.

– Enviei pedidos de informação para todos os orfanatos da região. Dei não só os nomes, mas também os sinais. A minha Leonor tem uma cicatriz no antebraço esquerdo, em forma de lua – cortou-se no canto de uma mesa. Devia ter ficado. E enviei pedidos às escolas – ela já tem sete anos, devia estar a estudar. O Tomás tem cabelo ruivo, sardas, e duas espirais na cabeça, os caracóis sempre em pé – por um instante, um sorriso quente, quase esquecido, pairou nos lábios da Helena.

– Então puxou ao pai, o ruivinho? E tu és morena.
– Não, não é meu filho, é do vizinho.

– E mesmo assim preocupas-te assim com ele?

– A minha Leonor é muito afeiçoada a ele, são como irmãos. E dá pena do rapaz – o pai está na frente, sem notícias desde o início do cerco. E a mãe morreu em quarenta e um.

– E o teu marido?

– Caiu nos arredores do Porto, nos primeiros meses.

– Coitadinha… Os pais vivem?

– O pai morreu. A mãe… não resistiu ao inverno passado.

– E porque não vos tiraram de lá?

– Ela era médica, não podia deixar o posto. E a nós, da fábrica, não nos deixaram sairE no silêncio que se seguiu, apenas partilhado pelo crepitar do lume, a Dona Amélia inclinou-se para a frente e disse com uma convicção tranquila: “Não desistas, filha, o coração de uma mãe sempre encontra o seu caminho de volta para casa”.

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