Os Três Irmãos Isolados Encontram um Coração PartidoE aquele empresário, que pensava conhecer a solidão, descobriu que ela nem se compara ao abraço de três crianças que finalmente se sentiram em casa.7 min de lectura

Os trigémeos da limpeza não se aproximavam de ninguém até se apegarem ao empresário que sofria. Naquela noite, enquanto Henrique assinava papéis importantes, três crianças de camisas azuis tomaram uma decisão que ninguém ali seria capaz de compreender. E foi exatamente isso que transformou tudo.

Henrique estava sozinho naquela sala enorme há mais de três horas, e o silêncio pesado só era quebrado pelo som da caneta a raspar o papel. Assinava documento após documento, sem conseguir tirar da cabeça o rosto de cada colaborador que seria despedido na segunda-feira. Eram 342 nomes que tinha memorizado sem querer, de tanto olhar para aquelas listas.

Pessoas que trabalhavam com ele há anos, que o cumprimentavam todos os dias no corredor com um sorriso, acreditando que os seus empregos estavam seguros. E agora ele tinha de acabar com tudo por causa de más decisões que tinha tomado nos últimos meses.

Investimentos que pareciam brilhantes no papel, mas que na prática tinham sangrado a empresa até quase a falência. O pai dele tinha falecido há dois anos, deixando tudo nas suas mãos. E Henrique tinha a certeza absoluta de que estava a desiludir o velho, mesmo depois de morto. A pressão no peito apertou com mais força e ele largou a caneta em cima da mesa, fechando os olhos por um instante, tentando respirar fundo, mas o ar não descia.

Ficava preso na garganta, como se o corpo se recusasse a funcionar. Foi nessa altura que ouviu a porta a abrir-se devagar e uma voz feminina a sussurrar algo que não conseguiu perceber. “Dr. Henrique, desculpe incomodar. Só vim buscar os meus meninos que ficaram a brincar aqui perto.”

A voz era baixa, quase envergonhada, e Henrique abriu os olhos devagar, virando a cabeça para ver quem tinha entrado. Era Cláudia, a senhora que limpava o escritório todos os dias depois de toda a gente ir embora. Estava parada na porta, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo e os olhos fixos no chão, como se tivesse medo de olhar diretamente para ele. Henrique conhecia-a de vista, cumprimentava-a sempre que a cruzava nos corredores, mas nunca tinha parado para conversar verdadeiramente.

Sabia apenas que trabalhava no turno da noite e que fazia sempre o seu serviço em silêncio, sem incomodar ninguém. Ia responder algo educado e voltar aos papéis quando percebeu três crianças pequenas atrás dela, três meninos idênticos, com cabelos louros e camisas azuis, a olharem para tudo com aquela curiosidade típica das crianças.

Trigémeos, pensou Henrique automaticamente. Pela altura, deviam ter uns dois anos, no máximo. “Pode entrar, sem problema”, disse Henrique, fazendo um gesto com a mão. A voz saiu mais cansada do que ele queria. Cláudia deu um passo para dentro da sala e os três meninos entraram com ela.

Mas, em vez de ficarem perto da mãe, como Henrique esperava, os três começaram a andar devagar em direção à mesa onde ele estava sentado. Cláudia arregalou os olhos e deu um passo rápido para a frente, tentando agarrá-los. “Pedrinho, Paulinho, Carlinhos, venham cá já. Não toquem em nada.”

Falou com aquela voz de mãe que tenta soar firme, mas que na verdade está cheia de vergonha. Os meninos não ligaram nenhuma. Continuaram a andar até chegarem muito perto da cadeira de Henrique. Ele ficou sem saber o que fazer, porque nunca fora muito bom com crianças. Não sabia como conversar com elas ou que tipo de coisas dizer.

Mas antes que pudesse pensar em algo, os três meninos simplesmente agarraram-se a ele. Um subiu para o seu colo sem pedir licença. Outro segurou-lhe a gravata com as mãozinhas pequenas e o terceiro apoiou os braços na sua perna, a olhar para cima com um sorriso enorme no rosto.

Henrique ficou completamente paralisado, sem saber como reagir. Cláudia estava vermelha de vergonha, tentando tirar os meninos de cima dele. “Meu Deus, desculpe, doutor. Eles nunca fizeram isto antes. Juro, eles não se aproximam de ninguém assim, nem do meu irmão que mora comigo.” Falou depressa enquanto tentava agarrar o menino que estava no colo de Henrique, mas a criança agarrou-se ao seu fato com uma força impressionante para alguém tão pequeno.

“Pedrinho, larga. Pelo amor de Deus. Larga o doutor agora.” Cláudia insistiu com a voz a tremer de nervosismo, mas o menino não largou, pelo contrário, encostou a cabecinha no peito de Henrique e fechou os olhinhos como se estivesse no lugar mais seguro do mundo. Os outros dois fizeram o mesmo.

Um começou a brincar com a gravata enquanto o outro subiu para a cadeira para ficar mais perto. Henrique sentiu algo estranho a acontecer dentro dele. Uma sensação que não conseguia nomear. O peito que estava apertado há horas de repente pareceu afrouxar um pouco. A respiração que estava presa começou a sair mais facilmente. E pela primeira vez naquela noite horrível, ele não estava a pensar nos documentos malditos ou nos colaboradores que seriam despedidos ou na empresa que estava a ir por água abaixo.

“Fica quieta, pelo amor de Deus”, Cláudia estava quase a chorar de vergonha. Agora puxou o braço de um dos meninos, tentando afastá-lo de Henrique, mas a criança começou a choramingar e agarrou-se ainda com mais força. Henrique levantou a mão num gesto calmo. “Não precisa de os tirar, está tudo bem”, disse, e até ele se surpreendeu com o tom da própria voz. Estava mais suave do que estivera o dia inteiro.

Cláudia parou a meio do movimento e olhou para ele com uma expressão confusa. “Mas, doutor, eles estão a atrapalhar o senhor. O senhor está a trabalhar?” E começou a falar. Mas Henrique abanou a cabeça. “Não estão a atrapalhar nada. Pode deixá-los ficar um bocado?” Disse. E desta vez até esboçou um meio sorriso.

O primeiro sorriso genuíno que conseguia dar em semanas. Cláudia ficou parada sem saber o que fazer, as mãos ainda estendidas no ar, como se estivesse pronta para arrancar os meninos dali a qualquer momento. “Tem a certeza, doutor? Eles podem sujar o fato do senhor ou amarrotar os papéis ou…” tentou argumentar, mas Henrique já tinha voltado a atenção para as crianças.

O menino que estava no seu colo tinha aberto os olhos e estava a olhar para ele com aquela intensidade que só as crianças pequenas têm. Os olhos azuis a brilhar cheios de curiosidade. Henrique percebeu que o pequeno estava a esticar a mãozinha na direção da caneta que estava em cima da mesa. “Queres a caneta?”, perguntou Henrique, pegando no objeto e mostrando-o ao menino.

A criança deu um gritinho de alegria e pegou na caneta com as duas mãos, como se fosse o brinquedo mais incrível do mundo. Começou a balançá-la no ar, fazendo barulhinhos com a boca. Os outros dois meninos viram aquilo e imediatamente fizeram o mesmo. Começaram a puxar a camisa de Henrique e a apontar para a caneta, fazendo uma grande confusão.

“Calma, calma, há para todos”, disse Henrique, pegando em mais duas canetas da mesa e entregando uma a cada um. As três crianças ficaram extasiadas com aquilo. Começaram a brincar com as canetas, como se fossem espadas ou aviões, fazendo sons estranhos e a rir muito. Cláudia estava de boca aberta a olhar para aquela cena. “DoutO futuro estendeu-se à sua frente, não como uma sentença, mas como uma promessa, e pela primeira vez, Henrique sentiu-se verdadeiramente em casa.

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