O Verdadeiro Resgate no Gelo Mas ao puxar a corda, ela percebeu que a mão que agarrava a sua não era a de um homem, mas a garra gelada da própria morte, vinda para cobrar uma dívida antiga.7 min de lectura

O gelo estalou tão alto que Inês nem percebeu de imediato: não era um ramo, era algo terrível.

Ela estava na margem do lago da cidade com um saco onde havia duas barras de pão e um pacote de bolachas das mais baratas. A mãe prometera fazer uma torta de maçã se Inês voltasse antes de escurecer. O sol de Dezembro já se punha, tingindo a neve de rosa, e a menina apressava-se, mas aquele som fê-la parar.

E então viu: no meio do lago, onde o gelo era mais fino, debatia-se um homem. Um sobretudo negro, elegante como nos filmes de gente rica, aparecia no meio do círculo de água aberto, as mãos agarravam-se às bordas que logo se partiam.

— Socorro! — gritou o homem, mas a sua voz era estranhamente baixa, como se já estivesse cansado de gritar.

Inês olhou em volta: na alameda havia pessoas. Uma mulher com um casaco de vison observava, com a mão no peito, mas não se mexia. Um homem de fato de treino sacou do telemóvel — não se sabia se para filmar ou telefonar. Um casal de estudantes olhou um para o outro e seguiu noutra direção, depressa, quase a correr.

— Chamem alguém! — gritou a mulher de vison, mas continuou parada.

Inês olhava para o homem que se afogava e pensava no que a mãe lhe dissera sobre nunca pisar o gelo. A mãe dissera muitas coisas: que não se fala com estranhos, que não se aceitam doces de desconhecidos, que é preciso ter cuidado porque ela, Inês, era a única coisa que restara à mãe. Mas a mãe também dissera que as pessoas devem ajudar-se umas às outras, porque senão o mundo torna-se num lugar frio onde cada um cuida de si.

Inês olhou para o saco com o pão, depois para o círculo de água aberto, depois para as pessoas que continuavam paradas a observar. O homem na água já quase não gritava, apenas se segurava à borda do gelo e olhava para a margem com uns olhos onde Inês, mesmo àquela distância, via o medo.

Não se lembrava de como chegara ao gelo. De repente, percebeu que corria, que as suas botas de feltro escorregavam e que o coração batia tão forte que abafava tudo o resto.

— Menina, onde vais? — gritou alguém da margem, mas Inês já não ouvia.

Sabia que não se devia aproximar muito da abertura — na escola tinham mostrado imagens, explicado. Por isso deitou-se no gelo a uns três metros do buraco e rastejou. O cachecol soltou-se e arrastou-se ao lado como uma serpente ruiva.

— Vai-te embora! — rangiu o homem quando a viu. Os dentes batiam, os lábios estavam azuis, mas os olhos zangados. — Sai daqui, criança, vais cair!

Inês não respondeu. Olhou para ele, depois para o gelo à volta da abertura, depois para o seu cachecol. O cachecol era comprido, a avó tricotara-o antes de morrer, e a mãe dissera que era uma lembrança e que devia ser guardado. Mas a avó também dissera que as coisas são apenas coisas, e as pessoas são mais importantes.

Inês tirou o cachecol e atirou uma ponta na direção do homem. O cachecol caiu na água ao lado da sua mão.

— Agarre-se! — disse com uma voz que não reconheceu.

— Não te consigo puxar — respondeu o homem, mas agarrou o cachecol.

— Tem de ser você. Eu seguro, e você puxa. Mas não puxe com força, senão vou escorregar na sua direção.

Não sabia de onde tinham vindo aquelas palavras. Talvez de um filme, talvez de um livro que a mãe lera. O homem olhou para ela um segundo, dois, depois acenou. Começou a puxar-se, e Inês sentiu o cachecol a esticar, a puxá-la para a frente. Apoiou as botas no gelo, mas as botas escorregavam. Então virou-se de costas, enrolou o cachecol no pulso e apoiou os calcanhares. Assim era melhor, quase não se mexia.

O homem saía da água devagar, muito devagar. O gelo sob ele estalava, e cada vez Inês pensava que ele ia cair de novo, mas ele não caía. Rastejava na sua direção, deixando um rasto molhado, e o seu sobretudo caro parecia agora um trapo. Quando chegou perto, Inês viu que ele não era velho, talvez como aquele ator da novela de que a mãe gostava. Rosto bonito, mas agora cinzento e assustador.

— Vamos para a margem — disse ela. — Devagar. Não se levante.

Rastejaram durante uma eternidade. Inês ouvia gritos na margem, uma sirene — alguém chamara uma ambulância. Pensou que a mãe iria ralhar, que o cachecol estava agora molhado e sujo, que o pão provavelmente se esmagara no saco que deixara na margem.

Quando finalmente chegaram à margem sólida, Inês sentou-se na neve e chorou. Não de medo — o medo viria depois, de noite, quando estivesse na cama a lembrar-se do estalar do gelo. Agora chorava apenas porque tudo acabara, e porque estava com muito frio, e porque o homem ao seu lado também chorava, embora os homens adultos não devessem chorar.

À sua volta as pessoas já se agitavam, apareciam de algum lado, como baratas quando se acende a luz. A mulher de vison estendia-lhe o seu cachecol, um homem qualquer telefonava, os médicos da ambulância corriam com uma maca.

— Como te chamas? — perguntou o homem molhado, e os dentes batiam tanto que as palavras saíam aos pedaços.

— Inês. Inês Silva.

— Eu sou o Diogo. Obrigado, Inês Silva.

Os médicos já o levavam para a ambulância, embrulhavam-no num cobertor, mas ele continuava a olhar para ela. Inês viu a ambulância afastar-se, depois apanhou o seu saco — o pão amassara-se, mas não muito — e seguiu para casa.

A mãe recebeu-a aos gritos. Não zangada, mas assustada: um vizinho já ligara a contar que vira Inês no gelo. Vera Silva, 29 anos, bonita mesmo agora com o rosto branco de pavor, agarrou a filha pelos ombros e abanou-a, perguntando o que acontecera e porque é que ela fizera aquilo.

Inês contou tudo: o estalar, o homem, o cachecol. A mãe ouviu, e o seu rosto mudou: primeiro medo, depois surpresa, depois um orgulho estranho, depois medo outra vez.

— Podias ter-te afogado — disse ela finalmente.

— Eu sei.

— Nunca mais faças isso.

— E se ele morresse?…

A mãe não respondeu. Apenas abraçou Inês com tanta força que ela quase não respirava, e não a largou durante muito tempo.

À noite fizeram a torta de maçã, embora as maçãs tivessem queimado um pouco, porque a mãe distraía-se e olhava para Inês, como para verificar que ela estava ali.

O apartamento delas era pequeno, um T0 num prédio antigo nos arredores da cidade. O papel de parede soltava-se nos cantos, o aquecedor aquecia mal, e a janela da cozinha estava tapada com plástico porque rachara no inverno passado, e não havia dinheiro para uma nova. Mas a mãe esforçava-se para tornar o espaço acolhedor: no parapeito da janela havia gerânios, na parede os desenhos de Inês, e na prateleira uma fotografia da avozinha numa moldura que decoraram juntas com conchas do mar. Inês não se lembrava do mar, foram lá quando ela tinha três anos, antes dea avó adoecer e todo o dinheiro ter sido gasto em medicamentos.

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