Olis, amiga. A água pingava do teto rachado do quartinho pequeno, a cair no colchão gasto onde o Bruno, com apenas 8 anos, tremia de febre.
A Paloma apertou os punhos enquanto observava o filho mais velho a lutar contra a doença, sabendo que não tinha dinheiro para o levar ao médico. Ao lado dela, a Leonor, uma menina que tinha acabado de fazer 5 anos, brincava distraída com uma boneca sem cabeça, alheia ao desespero que consumia a mãe. O frigorífico estava há três dias vazio. A Paloma tinha vendido tudo o que tinha de valor, os seus únicos brincos dourados, o relógio que foi da sua avó, até os sapatos bons que guardava para ocasiões especiais.
Tudo se tinha esfumado no turbilhão de contas médicas, renda atrasada e a necessidade básica de alimentar os seus pequenos. Naquela manhã, enquanto caminhava pelas ruas à procura de qualquer trabalho que pudesse conseguir sem experiência nem referências, a Paloma parou em frente a um café elegante no centro da cidade. Através do vidro, observou pessoas bem vestidas a desfrutar de pequenos-almoços que custavam mais do que ela ganhava numa semana. A raiva e a impotência misturavam-se no seu peito quando ouviu uma conversa na mesa perto da janela.
“Preciso de encontrar alguém urgentemente”, dizia uma senhora mais velha de cabelo grisalho perfeitamente apanhado. “O senhor Teixeira está desesperado. Despediu três cuidadoras no último mês. Diz que nenhuma percebe o que ele precisa.” “E o que é que ele precisa, exactamente?”, perguntou a sua acompanhante, uma mulher mais nova que tomava notas numa agenda de couro. “Paciência. Antes de mais, o acidente deixou-o completamente paralisado do pescoço para baixo. É um homem novo, tem apenas 40 anos, mas o seu carácter tornou-se difícil, muito difícil.”
“Paga bem, isso sim, muito bem, mas ninguém aguenta mais do que umas semanas.” A Paloma sentiu o coração a acelerar. Sem pensar duas vezes, empurrou a porta do café e aproximou-se timidamente da mesa. “Desculpe”, murmurou com a voz trémula de nervosismo. “Não pude evitar ouvir a vossa conversa. Precisam de uma cuidadora?” A senhora mais velha examinou-a de alto a baixo, reparando na sua roupa gasta e nos sapatos desgastados. A sua expressão mostrava cepticismo.
“Minha querida, este não é um trabalho qualquer. Requer experiência profissional, referências impecáveis…” “E eu tenho filhos para alimentar”, interrompeu a Paloma com uma firmeza que a surpreendeu a ela própria. “Farei o que for preciso, o que for.” A mulher, que se apresentou como sendo a Esperança, suspirou profundamente. Havia algo na determinação daquela jovem mãe que a comoveu. “O senhor Teixeira vive nos arredores da cidade, numa mansão isolada. Precisa de cuidados 24 horas por dia. O salário é suficiente para, bem, para mudar uma vida por completo, mas ele tem um temperamento explosivo e despede pessoas por qualquer coisa.”
“Quando posso começar?”, perguntou a Paloma sem hesitar. A Esperança trocou um olhar com a sua acompanhante. “Amanhã de manhã, mas aviso-te, muitas chegaram com a mesma determinação que tu e nenhuma durou.” Naquela noite, a Paloma abraçou os filhos enquanto lhes explicava que a mãe ia ter um trabalho novo, que iria viver numa casa grande a cuidar de um senhor doente, mas que os visitaria todos os dias. O Bruno, apesar da febre, agarrou-se a ela. “E se não voltares?”, perguntou com a voz rouca.
“Eu volto sempre”, prometeu a Paloma, beijando-lhe a testa ardente. “Tudo o que faço é por vocês.” No dia seguinte, um carro preto veio buscá-la. Durante a viagem para os arredores, a Paloma observou como a cidade se desvanecia e dava lugar a colinas verdes e mansões imponentes. A propriedade do Teixeira era diferente de tudo o que tinha visto, uma construção moderna de vidro e aço que se erguia como uma fortaleza entre jardins perfeitamente cuidados. A Esperança recebeu-a à entrada principal e guiou-a por corredores decorados com obras de arte que a Paloma não conseguia sequer imaginar o valor.
“Um último aviso”, disse-lhe a Esperança antes de tocar à porta do quarto principal. “O Teixeira era um homem muito activo antes do acidente. Dirigia um império empresarial, viajava pelo mundo, praticava desportos radicais. A imobilidade tornou-o amargo. Não leve as palavras dele para o lado pessoal.” A porta abriu-se, revelando um quarto enorme dominado por uma cama médica no centro. Junto à janela que dava para os jardins, um homem de cabelo escuro e traços marcados jazia imóvel, ligado a vários equipamentos médicos.
Os olhos dele, de um azul intenso, cravaram-se na Paloma com uma mistura de desinteresse e aborrecimento. “Mais uma”, murmurou o Teixeira com voz rouca. “Esta, quanto tempo achas que vai durar, Esperança?” “Uma semana.” “Dois dias”, corrigiu ele. “Senhor Teixeira, apresento-lhe a Paloma. Ela vem com excelentes referências.” “Todas vêm com excelentes referências”, interrompeu ele sem desviar o olhar da Paloma. “E tu, o que tens de especial? Também vais tratar-me como se eu fosse uma criança ou como se fosse um objecto partido que precisa de ser consertado?”
A Paloma sentiu a hostilidade nas palavras dele, mas também percebeu algo mais. Uma dor profunda escondida por detrás da rudeza. Aproximou-se lentamente da cama. “Não sei se tenho algo de especial”, respondeu com honestidade, “Mas tenho filhos que dependem de mim, por isso vou fazer o meu melhor para cuidar bem do senhor.” O Teixeira estudou-a durante um momento que pareceu eterno. Os olhos dele estreitaram-se como se estivesse a avaliar se ela seria mais uma desilusão. “Está bem”, disse finalmente, “mas quando não aguentares mais e decidires ir-te embora, não venhas com desculpas dramáticas, simplesmente vai.”
A Esperança mostrou à Paloma as instalações: o ginásio médico onde o Teixeira fazia fisioterapia, a cozinha especialmente equipada para preparar a sua dieta rigorosa e o seu próprio quarto na ala este da casa. A rotina diária incluía ajudá-lo com exercícios de mobilidade, administrar-lhe a medicação, preparar refeições específicas e, principalmente, assegurar o seu confort o em todo o momento. Os primeiros dias foram exaustivos. O Teixeira submetia-a a testes constantes. Pedia-lhe para reorganizar a sua almohada a cada poucos minutos, criticava cada refeição que ela preparava e queixava-se de tudo com uma negatividade que parecia não ter fim.
A Paloma mordia a língua e cumpria cada pedido, lembrando-se das caras do Bruno e da Leonor cada vez que sentia vontade de desistir. “Porque é que não me gritas?”, perguntou-lhe ele uma tarde depois de ter sido particularmente difícil. “Todas as outras acabavam por me gritar.” “Porque gritar não vai melhorar a sua situação”, respondeu a Paloma enquanto ajustava a sua posição na cama. “E gritar não vai ajudar os meus filhos.” Pela primeira vez, o Teixeira ficou em silêncio. Algo na sinceridade da Paloma lhe tinha tocado uma fibra que ele julgava completamente morta.
Uma semana depois, durante a rotina matinal, a Paloma reparou em algo estranho. Enquanto ajudava o Teixeira com os exercícios de alongamento, observou uma pequena contracção involuntária no seu pé esquerdo. Era subtil, quase imperceptível, mas estava lá. “O senhor sentiu isso?”, perguntou ela, contendo a emoA pequena contração no pé do senhor Teixeira não era um acaso, era o primeiro sinal de uma esperança que ela nunca tinha permitido sentir.





