A Idosa e o Lobo: Um Resgate Inesperado nas Gélidas ÁguasQuando seus olhos se ajustaram à penumbra, ela viu que não era uma ameaça, mas a matriarca e os filhotes do lobo, vindo em silêncio agradecer por salvar um dos seus.3 min de lectura

O frio cortante da Serra da Estrela era intenso. A lagoa estava quase totalmente coberta por uma camada de gelo, exceto num ponto onde a água permanecia escura e aberta. Foi precisamente aí que um lobo se debateu. Tinha caído naquele buraco e não conseguia sair.

O gelo debaixo das suas patas partia-se, ele escorregava e mergulhava novamente na água gelada. A cada minuto que passava, ficava mais fraco. A sua cabeça mal se mantinha à superfície, a respiração era ofegante, e o pelo, encharcado, puxava-o para o fundo.

Uma idosa, que andava por perto a apanhar lenha, ouviu um barulha de água e um som rouco e estranho. Ao aproximar-se, deparou-se com um enorme lobo-cinzento a afogar-se. O animal já quase não se mexia.

A velhinha não pensou no medo, nem que aquele era um animal selvagem e perigoso. Rapidamente encontrou um ramo comprido e seco, deitou-se no gelo para distribuir o peso e, com cuidado, rastejou em direção à abertura. O gelo estalava sob o seu corpo, mas ela moveu-se com lentidão e precisão.

— Aguenta — sussurrou ela, estendendo o galho.

O lobo mostrou os dentes num primeiro instinto, mas já não tinha forças para a fúria. Agarrou o pau com as patas dianteiras. A puxar, as mãos da mulher tremiam, as costas doíam-lhe, mas ela não largou. O gelo estalou mais uma vez, a água respingou, e finalmente o corpo pesado do lobo ficou em segurança.

O animal ficou deitado, a respirar com grande esforço. Uma das patas traseiras estava num ângulo estranho, claramente partida. O lobo não tentou atacar. Apenas olhou para a mulher, como se compreendesse que ela lhe tinha acabado de salvar a vida.

Mas naquele momento… Eles saíram da floresta… A idosa gelou de choque, sem acreditar no que os seus olhos viam.

A mulher já se preparava para se afastar, quando sentiu um olhar fixo nela. De entre as árvores, sombras moveram-se lentamente. No ar gélido, dez pares de olhos brilharam. Era a alcateia. Os lobos tinham farejado o odor humano e aproximavam-se, prontos para atacar. Eles não compreendiam que aquela pessoa em específico tinha salvo o seu companheiro das águas geladas.

A idosa ficou imóvel. Não tinha para onde fugir, e mesmo que tivesse, não teria tempo.

Foi então que o lobo ferido, com grande dificuldade, se levantou. Pôs-se à frente da mulher, protegendo-a com o seu próprio corpo, e rosnou para a alcateia. O rosnido era fraco, mas carregado de uma determinação inegável. O lobo olhou para os seus, como se a transmitir que aquela mulher não se tocava.

A alcateia parou. Durante uns segundos, ninguém se moveu. Depois, um dos lobos baixou a cabeça, e os outros começaram a recuar, lentamente.

O lobo ferido olhou para a mulher uma última vez. No seu olhar não havia medo ou raiva, apenas uma calma profunda. Moments depois, virou-se e, mancando visivelmente, seguiu o seu grupo.

A mulher ficou sozinha no gelo. O vento voltou a levantar a neve, como se nada tivesse acontecido.

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