Olha só, tive que adaptar uma história e deixá-la bem nossa, com uma pitada portuguesa. É a história do Daniel, um homem de negócios que voltou a casa mais cedo de uma viagem de negócios e descobriu uma situação muito complicada.
Ele estava em Lisboa, numa daquelas ruas luxuosas da capital, quando saiu do táxi à frente da sua moradia. E então, ouviu a voz assustada de uma menina a dizer: “Pai… por favor, ajuda-me. Ela vai bater-me outra vez.”
O Daniel Brooks, que agora se chama Daniel Silva, tinha 45 anos e era um magnata imobiliário. Ele regressou de Singadura um dia mais cedo, todo entusiasmado para surpreender a mulher, a Vanessa – agora a Leonor – e a filha de cinco anos, a Emma, que passou a chamar-se Matilde.
Mas quem ficou em choque foi ele.
Lá estava a Matilde, descalça, sentada no pavimento molhado, a apanhar pedrinhas coloridas das poças de água. O seu vestido amarelo, que outrora era bonito, estava sujo e rasgado. O cabelo desgrenhado colava-se às suas faces magras e ela segurava um urso de peluche velho, sem um olho.
Ela estava sozinha.
“Matilde?” – chamou ele, com a voz a tremer.
Ela olhou para cima, confusa. Depois, reconheceu-o. Os lábios tremiam e ela correu para ele, tropeçando.
“Pai! Pai, voltaste!”
Ele levantou-a ao colo e sentiu um calafrio. Ela estava magra de mais. Os braços pareciam frágeis, quase sem peso. Cheirava a sujidade e a urina. O vestido estava húmido da chuva e do suor.
“Minha querida… porque é que estás cá fora? Onde está a Leonor?”
Ela enterrou a cara no seu ombro, a tremer.
“A tia Leonor disse que morreste no avião” – sussurrou. – “Disse que nunca mais vinhas.”
O coração dele começou a bater com força. Ele olhou para a moradia. Todas as cortinas estavam fechadas, mas ouvia-se música alta lá dentro, misturada com risadas e vozes.
“Matilde… há quanto tempo estás aqui?”
“Desde ontem de manhã” – respondeu ela baixinho. – “A tia Leonor mandou-me ficar no jardim. Mas quando escureceu, fiquei com medo, por isso fiquei aqui à tua espera.”
“Desde ontem?”
Ela acenou com a cabeça.
Ele olhou para os pés dela – roxos de frio, com cortes pequenos. Havia hematomas nos braços, como se alguém a tivesse agarrado com força.
Ele levou-a até à porta e abriu-a.
Mal entraram, um cheiro forte embateu-lhes – cigarro, álcool e perfume.
A sala estava uma confusão. Garrafas de champanhe vazias, copos sujos, cinzeiros e roupa espalhada por todo o lado: uma camisa de homem, uma gravata cara, até um fato de marca.
Risadas altas vinham lá de cima.
“O que é que se passa aqui…” – murmurou ele.
A Matilde agarrou-se mais a ele.
“Os tios estão a brincar com a tia Leonor lá em cima” – sussurrou. – “Eles são sempre barulhentos quando brincam.”
Ele subiu as escadas devagar.
A cada passo, os sons ficavam mais claros – homens a falar, a rir, copos a tilintar.
Parou à frente da porta do quarto, que estava entreaberta.
Lá dentro, na cama que outrora partilhava com a Leonor, a sua mulher de 28 anos estava seminuva entre dois homens mais velhos, a beber champanhe e a rir.
A visão revoltou-o.
Atrás dele, a Matilde falou baixinho.
“Pai… posso ir para o meu quarto? Tenho muito frio.”
Ele afastou-se da porta, com a raiva a crescer.
Levou a Matilde pelo corredor até ao quarto dela.
Quando abriu a porta, o coração quase lhe partiu.
A cama estava por fazer, claramente intocada há dias. Pratos sujos com comida estragada estavam no chão. O quarto cheirava mal.
“Matilde… quando foi a última vez que tomaste banho? Quando é que comeste bem?”
Ela contou devagar nos dedos.
“Talvez… há cinco dias. A tia Leonor disse que crianças sujas não podem entrar quando vêm visitas importantes.”
Ele sentiu as pernas a fraquejar.
Cinco dias.
A sua filha tinha sido abandonada enquanto a sua mulher—
Ele afastou o pensamento.
“E onde está a Dona Maria?” – perguntou ele, referindo-se à empregada.
Os olhos da Matilde encheram-se de lágrimas.
“Ela foi-se embora a chorar. Ela discutiu com a tia Leonor. A tia Leonor disse que se ela contasse os segredos, algo de mau me aconteceria.”
“Que segredos?”
Ela olhou nervosa para a porta.
“Sobre os tios que vêm cá. A Dona Maria não gostava deles. Ela tentou manter-me lá dentro, mas a tia Leonor zangou-se e mandou-me ficar cá fora até eles irem embora.”
“Quantos homens vêm cá?”
“Às vezes um… às vezes dois… às vezes mais. Eles chegam em carros grandes.”
“E onde ficas tu?”
“No jardim. Tenho de ficar calada. Se chorar, a tia Leonor diz que tu vais ficar zangado comigo.”
Uma perceção arrepiante atingiu o Daniel.
Sempre que ele saía para o trabalho, a Leonor trazia homens para casa – e forçava a sua filha a ficar lá fora.
De cima vinham risadas altas e gemidos exagerados.
A Matilde tapou os ouvidos.
“Eles fazem sempre esses barulhos” – sussurrou. – “Eu pensava que a estavam a magoar… mas depois de eles irem embora, ela conta dinheiro.”
Dinheiro.
O Daniel finalmente percebeu.
A Leonor não estava só a ser infiel.
Ela tinha transformado a sua casa num sítio onde se vendia.
De repente, passos ecoaram nas escadas.
Ele rapidamente levou a Matilde para a cozinha e procurou comida. O frigorífico só tinha cerveja importada e sobras estragadas.
“O que é que tens comido?” – perguntou ele.
“Às vezes a vizinha, a Dona Ana, dá-me uma sandes quando me vê cá fora” – disse a Matilde. – “Ou bebo água da mangueira do jardim.”
Ele encontrou leite e bolachas e pôs-os em cima da mesa.
A Matilde bebeu o leite com vontade.
Nesse momento, dois homens entraram na cozinha. Um deles estava a usar o roupão do Daniel.
Eles pararam, surpreendidos, ao vê-lo.
“Uh… desculpe, meu” – disse um, constrangido. – “A Leonor nunca mencionou um marido.”
“O que queres dizer com ‘nunca mencionou’?”
“Nós pagámos para estar aqui” – disse o mais novo, com à-vontade. – “Ela cobra mais por receber clientes na moradia de um tipo rico.”
Ele sentiu o chão a mover-se debaixo de si.
“Vocês pagaram?”
“Sim. Cem cada.”
Nesse momento, a Leonor entrou na cozinha, vestindo uma camisa de noite fina.
Quando viu o Daniel, ficou pálida.
“Daniel… não esperava que voltasses tão cedo.”
Os dois homens vestiram-se rapidamente e saíram sem dizer mais nada.
O Daniel ficou em silêncio com a Leonor e a Matilde.
“Então” – disse ele friamente – “tens cobrado a estranhos para dormirem contEle abraçou a Matilde, prometendo que nada daquilo voltaria a acontecer, e finalmente sentiu-se em casa.





