Um Convite Inesperado no Escritório A aceitação dela não foi pelo poder ou riqueza, mas pela promessa de que sua pequena família jamais ficaria desprotegida novamente.6 min de lectura

Uma noite de janeiro em Lisboa era tão fria que o hálito parecia gelar no instante em que deixava os lábios. Catarina Neves estava de joelhos no chão, a esfregar a casa de banho do 12º andar de um edifício de escritórios, quando o telemóvel no bolso começou a vibrar. Olhou para o relógio: 5 da manhã. Ninguém ligava àquela hora a menos que algo estivesse errado. O coração apertou-lhe quando viu o número da creche no ecrã. A voz da educadora do outro lado era plana e distante, como se lesse um comunicado preparado. A Leonor tinha tido febre alta desde a meia-noite. A bebé não parava de tossir. A creche não podia aceitar uma criança com sinais de doença. Catarina precisava de ir buscá-la imediatamente. Antes que pudesse dizer uma palavra, a chamada terminou. Ela ergueu-se de um salto, com a cabeça a andar à roda. Leonor, a sua filhinha de 8 meses, a única pessoa que lhe restava neste mundo.

Catarina saiu a correr do edifício sem dizer a ninguém, atirando-se à escuridão gélida. A chuva miudinha começara a cair, estilhassando-se no seu rosto como agulhas minúsculas. Correu três quarteirões porque não tinha dinheiro para um táxi. Quando chegou à creche, os lábios estavam azuis e as pernas dormentes. Leonor estava ao colo da educadora, o rosto corado de febre. Os seus gritos fracos soavam como os de um gatinho abandonado. Catarina puxou a filha para perto, sentindo o calor que irradiava do pequeno corpo através das roupas finas. A sua criança estava a arder em febre. Levou a Leonor de volta para o quarto alugado e decadente num bairro social de Lisboa. O quarto mal tinha 10 metros quadrados, as paredes manchadas de humidade, a janela tapada com fita porque o vidro se partira há muito. O aquecedor estava avariado há 2 semanas.

Catarina deitou a Leonor na cama, envolveu-a em mantas, e abriu o armário de medicamentos. Estava vazio. Usara o último xarope para a febre na semana anterior e não tivera dinheiro para comprar mais. Lágrimas correram-lhe pelas faces enquanto via a filha a contorcer-se em agonia febril. O telemóvel vibrou novamente. Desta vez era a empresa de limpeza. Catarina atendeu e a voz da sua chefe surgiu, cortante e zangada. Onde estava ela? Porque tinha abandonado o turno? Catarina tentou explicar sobre a Leonor, sobre a febre, sobre precisar de um dia de folga. A chefe cortou-lhe a palavra. Havia um trabalho especial hoje, um cliente VIP, uma mansão em Cascais. Se não aparecesse, estava despedida. Sem exceções.

Catarina quis gritar. Quis atirar o telefone contra a parede, mas não pôde porque se perdesse o emprego, não teria dinheiro para a renda, nem para o leite da Leonor, nem para medicamentos. Ela e a filha ficariam na rua neste inverno brutal. E o Rui, o seu ex-marido violento que a perseguia pela cidade, encontrá-la-ia mais facilmente do que nunca. Catarina olhou para a Leonor, que ora adormecia ora acordava de exaustão. Não tinha ninguém para ficar com a sua criança. Tomou a única decisão que podia. Vestiu a Leonor com mais camadas de roupa, envolveu-a em três mantas, e colocou-a no carrinho de bebé tremelicante que comprara num *shop* de segunda mão por 5 euros. Enfiou um biberão, fraldas e um xarope para a febre que pedira emprestado a uma vizinha na sua saca. Depois, empurrou o carrinho para fora do quarto escuro e entrou na tempestade.

O endereço na mensagem levou-a a Cascais. Catarina nunca lá pusera os pés antes. Sentiu-se como uma nódoa numa pintura perfeita. Quando parou em frente ao endereço indicado, o coração quase lhe parou. Diante dela erguia-se uma mansão enorme, escura como a noite, com portões de ferro altíssimos lavrados com cabeças de leão a rosnar. Catarina ficou diante do portão de ferro por um longo momento, sem se atrever a entrar. A Leonor choramingava no carrinho, os seus gritos fracos engolidos pelo vento e pela chuva. Catarina inspirou fundo e empurrou o portão pesado. Este abriu-se sem um som, como se estivesse perfeitamente oleado. Um caminho de pedra negra levou-a através de um jardim desolado. Estátuas de pedra estavam espalhadas de ambos os lados. Catarina estremeceu e puxou a manta mais sobre o rosto da Leonor. A porta da frente da mansão era de carvalho maciço. Empurrou-a levemente, e a porta abriu-se como se a casa a estivesse à sua espera.

Lá dentro, o hall principal era vasto como uma catedral. O chão de mármore negro brilhava como um espelho, refletindo a sua pequena figura perdida. Catarina sentiu-se como uma formiga que vagueara para o palácio de demónios. Algo naquela casa a aterrorizava até à medula. O ar era pesado e frio, transportando um aroma de solidão e dor. Uma fina camada de pó cobria tudo. A Leonor começou uma crise de tosse prolongada. Catarina precisava de encontrar calor imediatamente. Abriu a primeira porta no rés-do-chão—uma sala de estar, mas o aquecedor estava avariado. Correu para a divisão seguinte—uma sala de jantar. O aquecedor também estava avariado. O pânico começou a subir-lhe no peito. Pegou na Leonor ao colo e subiu a escadaria a correr. O quarto de hóspedes, a biblioteca, a sala de recreio—todos avariados. A Leonor começou a chorar mais alto. Depois, no fim do corredor no terceiro andar, encontrou um escritório com um aquecedor que libertava ar quente.

Catarina quase chorou de alívio. Colocou a Leonor perto do aquecedor, removeu algumas camadas de roupa, e deu-lhe o xarope. A Leonor acalmou lentamente, as suas pálpebras pesadas fecharam-se. Catarina enfiou a *baby monitor* no bolso e decidiu começar a trabalhar enquanto a Leonor dormia. Não sabia que, enquanto ela esfregava a escada no primeiro andar, um carro negro e elegante parara lá fora e o dono da mansão entrava em sua casa. Catarina estava de joelhos no 12º degrau quando ouviu o choro—o choro da Leonor, mas era um choro de medo. Catarina largou o esfregão e disparou escada acima. A *baby monitor* no seu bolso não emitia som; tinha avariado. Correu pelo corredor. O choro da Leonor parou. O silêncio súbito era aterrador.

Abriu a porta do escritório com um empurrão e ficou paralisada. Um homem estava no centro da sala de costas para ela, alto, de ombros largos, usando um longo casaco preto. Nos seus braços estava a Leonor, recostada no peito de um estranho. Catarina viu uma arma negra e elegante em cima da secretária de madeira. O homem balouçava-se suavemente, um som baixo de *shhh* saía da sua boca. Depois o homem virou-se. O seu rosto era talhado como granito, os olhos da cor de uma tempestade. No entanto, no fundo daqueles olhos, Catarina viu uma dor profunda.

“Quem é você?” A sua voz era baixa.

“Sou a Catarina. Catarina Neves. A mulher da limpeza A sua voz era grave, cortando o ar pesado do escritório.

Leave a Comment