O empresário viúvo, desolado e com dois bebés, foi encontrado pela sua empregada no quintal da casa, encostado ao muro de tijolos, sem forças para prosseguir. Tomás estava ali há horas com Beatriz e João nos braços, ambos envoltos em mantas claras, a choramingar baixinho de fome e cansaço. O fato azul-escuro estava sujo de pó, a gravata desalinhada, o rosto marcado pelo desespero de quem já não sabia como continuar.
Catarina surgiu à entrada do quintal, ainda de uniforme escuro com detalhes brancos, o avental atado à cintura, os olhos arregalados ao deparar-se com o seu patrão naquele estado. O silêncio pesado só era quebrado pelo choro fraco dos bebés e pelo vento quente que assobiava entre os vasos de barro espalhados pelo chão de terra batida.
Permaneceu imóvel por instantes, a tentar compreender a cena. O homem mais poderoso que conhecia estava ali sentado no chão como um náufrago, a segurar os filhos recém-nascidos como se fossem a única coisa real que restava no mundo. Tomás nem sequer ergueu os olhos quando a ouviu chegar. Já não tinha energia para explicações ou desculpas.
Apenas apertou os bebés contra o peito, sentindo o calor dos pequenos corpos, enquanto Catarina dava um passo hesitante na sua direção. O ar estava quente e abafado, e naquele recanto esquecido do quintal, longe da mansão e dos negócios, algo estava prestes a mudar para sempre na vida daqueles três. Catarina avançou mais dois passos firmes na direção de Tomás, sentindo o coração acelerar, não apenas pela urgência da situação, mas pela dor crua que via estampada no rosto daquele homem que sempre conhecera como forte e determinado.
Ajoelhou-se devagar, dobrando os joelhos até ficar à altura dele, e estendeu os braços com uma firmeza que não admitia recusa. “Dê-me os bebés, senhor Tomás, agora.” Não era um pedido, era uma ordem gentil, mas determinada, proferida com a autoridade de quem sabia exactamente o que precisava de ser feito naquele momento crítico.
Tomás olhou para ela com os olhos vermelhos e fundos, cheios de uma exaustão que ia muito além do cansaço físico. Era o esgotamento de uma alma que perdera tudo o que importava e agora lutava para manter vivos os únicos fragmentos que restavam da sua vida anterior. Hesitou por breves segundos, apertando a Beatriz e o João contra o peito, como se fossem âncoras que o impediam de submergir por completo, mas as mãos tremiam tanto que os bebés se agitavam inquietos, sentindo a tensão que irradiava do corpo do pai. Catarina tocou suavemente no braço de Beatriz, sentindo o calor da pele delicada através do tecido da manta. E a bebé moveu-se, soltando um suspiro baixinho que soou como uma pergunta sem resposta. “Eles sentem tudo o que o senhor sente?”, disse ela com voz firme, mas compreensiva. “O bebé é como uma esponja, absorve toda a energia à volta. Se o senhor está desesperado, eles ficam desesperados também.” A muito custo, Tomás afrouxou o abraço e permitiu que Catarina pegasse primeiro em Beatriz, que estava com o rostinho muito vermelho de tanto chorar. A empregada acomodou a menina com uma impressionante habilidade na curva do braço esquerdo, fazendo movimentos suaves e naturais que pareciam vir de anos de prática, enquanto com a mão direita puxava João contra o seu ombro, acalmando-o com a respiração entrecortada.
Tomás sentiu um vazio gelado no peito, assim que o peso dos bebés saiu do seu colo, mas ao mesmo tempo experimentou um alívio vergonhoso por poder finalmente relaxar os músculos das costas, que doíam como se estivessem a ser esmagados por uma prensa invisível. “Pronto, meus amores,” sussurrou Catarina para os bebés, embalando-os contra o corpo, com movimentos ritmados, que fizeram com que o choro diminuísse quase instantaneamente. “Agora estão seguros. A titia Cá está aqui.” Levantou-se com os dois nos braços, demonstrando uma força física que Tomás não sabia que ela possuía. E olhou para o patrão, ainda sentado no chão, de terra batida. “O senhor precisa de sair deste sol agora, antes que desmaie de vez. Vamos para debaixo daquela cobertura ali.” Indicou com o queixo uma área coberta do quintal, onde existia uma antiga pia de pedra e uma bancada de madeira rústica que oferecia sombra e um pouco mais de estrutura.
Tomás tentou levantar-se, mas as pernas falharam, a tremer como gelatina, e teve de se apoiar na parede de tijolos. Respirou fundo várias vezes até conseguir manter-se de pé. O mundo girou à sua volta por alguns segundos, pequenos pontos negros dançaram na sua visão, e ele precisou de fechar os olhos e contar até dez. Antes que conseguisse caminhar, Catarina já se tinha dirigido para a área coberta, colocando os bebés sobre a bancada de madeira forrada com um pano limpo que tirou do bolso do avental, sempre atenta para que não rolassem ou se magoassem. Tomás seguiu-a, arrastando sapatos de couro italiano na terra, sentindo-se ridículo naquele fato caro e sujo, completamente deslocado naquele cenário abandonado. “Eles estão com muito calor,” constatou Catarina, começando a desenrolar as mantas grossas com movimentos rápidos e precisos. “Num dia de trinta graus, o senhor enrolou-os como se fosse Inverno. E a fralda do João está encharcada. Ele deve estar assado e com dores.” Verificou a temperatura da pele dos bebés com as costas da mão, um gesto automático que revelava experiência. Tomás encostou-se à pilastra de madeira, observando a cena com os olhos marejados, sentindo-se completamente inútil. “Eu pensei que eles estavam com frio porque as mãozinhas estavam geladas,” murmurou, a voz carregada de culpa. “Depois enrolei mais panos neles.” Catarina abanou a cabeça enquanto tirava as roupinhas suadas dos bebés. “As mãos e os pés de recém-nascido são sempre mais frios, senhor Tomás. Isso é normal. Mas o tronco deles estava a ferver. Se o senhor os tivesse deixado aqui ao sol durante mais vinte minutos, poderiam ter tido uma convulsão febril.” A informação atingiu Tomás como um murro no estômago. Tapou o rosto com as mãos, sentindo a culpa corroer cada pedaço da sua consciência. Poderia ter matado os próprios filhos por ignorância, por desespero, por não saber o básico sobre cuidar de bebés. A responsabilidade era demasiado esmagadora para os seus ombros, já vergados pelo luto. “Respire, senhor Tomás,” disse Catarina, sem parar de trabalhar, apanhando um pouco de água fresca na torneira da pia de pedra para passar no rosto dos bebés. “O que importa é que agora estão bem, mas nós precisamos de resolver isto direito.” Pegou nos biberões que estavam na bolsa que Tomás tinha largado num canto e fez uma careta ao cheirar o conteúdo. “Este leite azedou por causa do calor. Se eu der isto a eles, vão ter uma infecção intestinal grave.” Tomás arregalou os olhos em pânico total. “É tudo o que eu tenho aqui. Fugi da casa principal porque já não aguentava ouvir o telefone tocar, as pessoas a perguntar como eu estava, oferecendo ajuda que não sabiam dar. Esqueci-me de pegar na lata de leite em pó.” “Sorte a sua que eu sou prevenida,” respondeu Catarina, tirando duas saquetas pr”Pois eu cá ando sempre com algumas saquetas no bolso do avental, para precaver,” respondeu Catarina, misturando o leite em pó com a água mineral que estava sobre a pia, enquanto Tomás observava, vendo o seu desespero a ser lentamente substituído por um frágil fio de esperança.





