“A tua filha não está doente… foi a tua noiva que lhe rapou a cabeça”, disse o rapazinho da rua.
O senhor Eduardo Silva empurrava a cadeira de rodas da filha pelos caminhos do Parque Florestal de Monsanto. O crepitar das folhas secas sob as rodas parecia mais alto do que o normal… ou talvez fosse o silêncio entre os dois que fazia tudo doer mais.
Beatriz, a sua menina de apenas 17 anos, já não era a mesma.
A jovem que antes corria a rir entre as árvores, agora mal conseguia segurar a cabeça. O seu cabelo… aquele cabelo negro, longo e brilhante que tanto cuidava… tinha desaparecido. O seu couro cabeludo estava completamente rapado. Um soro pendia ao lado da cadeira, e a sua pele, pálida como papel, fazia com que o senhor Eduardo sentisse a vida a fugir-lhe por entre os dedos.
—Aguenta, minha menina… — sussurrou ele, com a voz embargada. — Falta pouco… vais melhorar.
Mas nem ele próprio acreditava.
Foi então que um ruído interrompeu tudo.
Passos rápidos… descalços… desajeitados.
Um miúdo saiu a correr de entre as árvores, magro, sujo, com a roupa rasgada e os olhos cheios de medo… mas também de urgência.
Parou à frente deles, ofegante.
E, sem pensar, soltou a frase que mudaria tudo:
—A sua filha não está doente!… — gritou. — Foi a sua noiva… ela é que lhe cortou o cabelo!
O mundo do senhor Eduardo parou.
Literalmente.
As suas mãos crisparam-se no guiador da cadeira. O coração bateu-lhe no peito como se quisesse fugir.
—O que… o que é que estás a dizer, miúdo? — murmurou, quase sem conseguir falar.
Beatriz ergueu o olhar pela primeira vez em dias.
Algo… algo se acendeu nos seus olhos.
Esperança?
Medo?
Lembrança?
—Eu vi, senhor… — disse o rapaz, engolindo em seco. — Vivo atrás da sua casa… bem… escondo-me lá… e uma noite… eu vi-a…
Antes que pudesse terminar, uma voz cortou o ar como uma faca.
—Eduardo, não lhe dês ouvidos!
Os saltos altos da Carolina bateram no chão com força enquanto se aproximava. Elegante, impecável… mas com o rosto tenso, quase desfeito.
—Esse rapaz está a mentir — disse, agarrando o braço do senhor Eduardo. — De certeza que quer dinheiro. Bem sabes como são.
O rapaz abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos.
—Não, senhora… eu não minto… a menina sempre foi boa para mim… a mãe dela também…
Esse nome pesou.
A falecida esposa de Eduardo.
A única mulher que tinha amado verdadeiramente.
Beatriz sussurrou, débil:
—Pai… eu… lembro-me de algo…
A Carolina inclinou-se, rápida, quase desesperada.
—Meu amor, estás confusa… são efeitos da medicação…
—Que medicação? — interrompeu o rapaz de repente.
O silêncio foi imediato.
O vento parou de soprar.
—Que médico é que a está a tratar, senhor? — perguntou o rapaz, olhando fixamente para Eduardo. — Porque eu ouvi a senhora ao telefone… disse que esse médico tem dívidas… de jogo…
O senhor Eduardo sentiu o chão a desaparecer-lhe sob os pés.
O médico…
O tratamento…
Os remédios…
Tudo… tinha sido escolhido pela Carolina.
—Como é que sabes isso? — perguntou, com a voz a tremer.
—Porque observo… — respondeu o rapaz. — Se não o fizer… não sobrevivo.
A Carolina soltou uma risada seca, falsa.
—Por favor… Eduardo, isto é um absurdo. Vamos embora.
Mas desta vez…
Eduardo não se mexeu.
Pela primeira vez em semanas… olhou para ela verdadeiramente.
E algo não encaixava.
Demasiadas coisas não encaixavam.
—Pai… — sussurrou Beatriz, apertando-lhe a mão. — Eu senti… como se alguém me tocasse na cabeça uma noite…
A Carolina ficou tensa.
Só por um segundo.
Mas foi o suficiente.
O rapaz deu um passo em frente.
—Não foi só isso, senhor… — disse em voz baixa. — Também a vi… a queimar o cabelo… no pátio… de madrugada…
O ar ficou pesado.
Irrespirável.
Eduardo virou lentamente a cabeça para a sua noiva.
—Carolina… — disse, muito devagar. — O que se passa?
Ela não respondeu de imediato.
E aquele silêncio…
Aquele pequeno, maldito silêncio…
Foi mais aterrador do que qualquer palavra.
O rapaz voltou a falar, quase a sussurrar:
—Se não acredita em mim… posso mostrar-lhe onde guarda as coisas…
Os olhos da Carolina abriram-se um pouco… mas o medo já não se conseguia esconder.
E nesse instante…
O senhor Eduardo compreendeu algo que lhe gelou o sangue:
Talvez…
a sua filha nunca tivesse estado doente.
Talvez…
a estivesse a envenenar… alguém que vivia sob o seu próprio teto.
Mas o pior ainda não tinha vindo ao de cima.
Porque o que o rapaz sabia…
era apenas uma parte.
A mais suave.
A mais “inofensiva”.
A verdadeira escuridão…
continuava escondida dentro daquela casa.
E estava prestes a revelar-se.
PARTE 2…
—O SEGREDO POR TRÁS DA CASA
O senhor Eduardo não disse mais uma única palavra.
Apenas deu meia-volta.
—Vamos para casa… já.
A sua voz já não era a de um homem confuso. Era a de um pai… à beira de descobrir algo que podia destruir tudo.
Beatriz respirou fundo, agarrando-se à cadeira.
O rapaz hesitou um segundo.
—Posso ir convosco, senhor?
Eduardo olhou para ele.
E acenou com a cabeça.
—Se estiveres a mentir… vais-te arrepender.
Mas se estiveres a dizer a verdade… fico-te a dever a vida da minha filha.
A Carolina engoliu em seco.
—Isto é uma loucura, Eduardo… estás a perder a razão por causa de um vadio…
Mas ele já não a ouvia.
A casa dos Silva estava em silêncio quando chegaram.
Silêncio a mais.
Aquele tipo de silêncio que não traz paz… só suspeita.
—Leva-a para a sala — disse Eduardo ao rapaz.
—Chamo-me Tomás… — respondeu ele em voz baixa.
—Obrigado, Tomás.
A Carolina seguiu-os, cada vez mais pálida.
—Eduardo, por favor… vamos falar… isto não é necessário…
Mas ele já subia as escadas.
Direto ao quarto principal.
Direto ao pequeno armário branco… aquele que sempre estivera trancado.
Aquele que ele nunca questionou.
—A chave — disse, estendendo a mão.
A Carolina recuou.
—Deixei-a lá em baixo…
—A chave, Carolina.
Desta vez não era um pedido.
Era uma ordem.
As mãos dela tremeram enquanto tirava uma pequena chave dourada do seu colar.
O clique da fechadura soou… como um tiro.
Eduardo abriu a porta.
E o mundo… partiu-se.
Dentro havia frascos.
Pós brancos.
Seringas.
Medicamentos com rótulos arrancados.
E… mechas de cabelo negro.
O cabelo da Beatriz.
Guardado… como se fosse um troféu.
—Meu Deus… — sussurrou Eduardo, sentindo náuseas.
Tomás empurrou a cadeira até à porta.
Beatriz viu tudo.
E um grito abafado saiu do seu peito.
—…foi… foste tu que me fizeste isto…
A Carolina caiu de joelhos.
O teatro tinha terminado.
—Não… não é o que pareceEla levantou o rosto, com os olhos vazios, e confessou: “O dinheiro do teu seguro de vida não ia chegar para as minhas dívidas, então a doença dela era o único empréstimo que os bancos me davam.”





